TERAPIA e FANTASIA
TERAPIA e FANTASIA
No filme Tratamento de Choque (2003), o genial Jack Nicholson interpreta um terapeuta tão maluco que a gente se pergunta: será que o terapeuta não é ele próprio o doido da história? O filme até tenta responder — meio forçadamente, vai — mas a pergunta mais divertida fica no ar. Afinal, terapia e extravagância sempre andaram de mãos dadas.
Lá no fim da Idade Média, o "tratamento” para a loucura era uma espécie de show de horrores: o paciente era contido, faziam uma incisão no couro cabeludo e tiravam uma pedra — supostamente a causa da insanidade. Daí a expressão "louco de pedra" daí a expressão “Tem cá uma pedrada! “. Também usavam técnicas sutis como atirar o paciente para poços de água gelada, encenar quedas de torres ou acorrentar o paciente .
Com o tempo, as terapias ficaram mais refinadas — ao menos no nome. No séc. XVIII, o vienense Franz Mesmer inventou o mesmerismo. Acreditava numa energia universal transmitida por magnetismo. Suas sessões envolviam mulheres (claro), fluido magnético e barras de metal. Muitas entravam em transe, e Mesmer aplicava massagens misteriosas para "libertá-las". Foi expulso da Academia de Ciências, mas passou a ser sinónimo de hipnose — e o termo "mesmerizing" (hipnotizante) continua firme no inglês até hoje (Crabtree, 1993).
No século XX, Wilhelm Reich levou o delírio mais longe: criou a teoria do "orgônio", uma energia cósmica e sexual que regulava de tudo — do clima à saúde mental. Ele construiu caixas de madeira, chamadas de acumuladores de orgônio, onde o paciente se sentava pra absorver essa energia. Resultado? Foi preso nos EUA por práticas pseudocientíficas e morreu na cadeia. Virou até documentário: Love, Work and Knowledge (Sharaf, 1994).
Nos anos 1970, Arthur Janov lançou a terapia do grito primal: a ideia era gritar pra curar traumas antigos. Ficou famosa com John Lennon e Yoko Ono — Lennon até gravou Plastic Ono Band inspirado na experiência (Janov, 1970). Quer mais catarse? A terapia da raiva permite gritar, bater em almofadas ou quebrar objetos. Em Tóquio e Nova York, já existem salas especializadas: você paga, veste um macacão e destrói pratos e eletrônicos à vontade. Por aqui, talvez o preço das louças desestimule, mas a ideia é boa.
Hoje, as terapias alternativas seguem se reinventando. Tem quem jure pelos efeitos do reiki, que promete equilibrar os chakras com imposição de mãos. Outros apostam nos cristais, nas frequências sonoras, na cura quântica (ninguém sabe o que é, mas o nome é bonito).
Algumas práticas têm respaldo científico — como a forest therapy (banho de floresta), adotada como política pública no Japão. A proposta é simples: andar devagar entre árvores para "absorver a energia da natureza". Funciona? Estudos mostram que reduz o cortisol e melhora o humor (Li, 2018). Outra que cresceu é a terapia do riso, usada até em hospitais — e celebrada no filme Patch Adams (1998), com Robin Williams. Rir ajuda mesmo: ativa a dopamina, melhora a imunidade e aproxima as pessoas.
E tem a famosa constelação familiar, que virou moda em empresas e grupos terapêuticos. A premissa é que traumas familiares se perpetuam como fantasmas no nosso comportamento atual. Polêmica? Sim. Mas muita gente sai tocada. Freud talvez chamasse de "neurose de repetição".
Mais excêntrica ainda é a terapia com cavalos — sim, cavalos. A ideia é que esses animais, por serem hipersensíveis, captam e respondem ao estado emocional humano. Montar pode nem ser necessário: só de estar perto do animal, muita gente relata alívio e introspecção.
Até a psicanálise, que parece sisuda, já passou por várias revoluções internas. Freud abriu o caminho com suas ideias sobre o inconsciente, os sonhos e os complexos. Depois vieram Jung, com os arquétipos e o inconsciente coletivo; Melanie Klein e a análise infantil; Winnicott, com a teoria do "ambiente suficientemente bom"; e Lacan, com suas frases enigmáticas. Hoje em dia, tem analista que atende caminhando com o paciente na praia. Um pouco de exercício, um pouco de terapia — por que não?
Mas afinal, tudo isso funciona? Depende. A maioria dessas abordagens não passou por testes rigorosos. Algumas, como o banho de floresta, yoga e mindfulness, já têm respaldo. Outras, como a cura quântica, operam mais na base da fé. A verdade é que o efeito placebo — sentir melhora só por acreditar — é real e poderoso (Benedetti, 2008).
Como disse William James, um dos pais da psicologia moderna: "A verdade é o que funciona". No fim das contas, nossa mente precisa de sentido — e muitas vezes esse sentido vem através de uma boa história. A psicologia e o cinema vivem entrelaçados nesse palco.
Quer exemplos? Clube da Luta (1999) explora a raiva reprimida e a esquizofrenia com força cinematográfica. O Livro do Riso e do Esquecimento, de Milan Kundera, fala sobre a memória e o esquecimento como parte da nossa identidade. E Rollo May, psicólogo existencialista, lembrava que aceitar o sofrimento é parte da jornada de ser humano.
Talvez seja isso: rir, gritar, andar entre árvores ou bater papo com um cavalo — se ajuda, já valeu. E como diria o Jack Nicholson em Tratamento de Choque: a loucura, às vezes, é só um ponto de vista bem ensaiado.
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