O pastel de feijão – coisa de memória e de gula.
O pastel de feijão – coisa de memória e de gula.
Sabia que os primeiros registos escritos sobre a introdução do feijão no território português datam do século XVI? Chamado de “feijão do Peru” ou “feijão das Índias Ocidentais”, foi acolhido nos campos e hortas das ordens religiosas — nomeadamente nos quintais dos franciscanos e beneditinos, onde se cultivava o necessário para sustento e partilha.Phaseolus vulgaris, na sua versão branca, tornou-se estrela discreta da gastronomia lusa: ora nas sopas de feijão com couve e chouriço, ora em forma de creme, ora… em pastel. Sim, o pastel de feijão! Aquele que leva muito açúcar, muitas gemas, massa fina e paciência — lembrando os doces conventuais, embora por cá não haja registo direto de mosteiros que o tenham inventado. Talvez por inspiração das freiras de Odivelas, de Arouca ou do Lorvão, que dominavam a arte de transformar leguminosas em massas doces e espessas (Simões, 2001).
A verdade é que há outros pastéis de feijão pelo país (Ex em Torres Vedras, com fama e registo mais antigo). Mas há diferenças que não passam despercebidas ao paladar atento: Já os de Viseu distinguem-se pela massa fina e crocante, quase rendilhada, e por um recheio suave, aveludado, onde o feijão branco predomina sem ser enjoativo. É outro fôlego, outra textura — como se o pastel respirasse com mais elegância. Menos convento, mais salão de chá.
E o que terão dito dele, Camilo e Aquilino ? Certamente que o terão equacionado no consolo quer no glamour de amores arrebatados.
Em Viseu, foi pela mão dos mestres da mítica Pastelaria Santos, nos anos 50, que ele ganhou forma e fama. Dava-se à Rua Formosa, onde a cidade passeava o seu vagar —e bebia o chá das cinco, entre repenicadas conversas.
Quando a pastelaria fechou, nos anos 80, ficou um vazio. Mas a memória resistiu, como resistem as boas receitas: guardadas num caderno, num molde, num gesto. Um antigo trabalhador salvou a fórmula, as formas de metal escurecido pelo tempo, e devolveu-nos o pastel.
Hoje, com produção renovada e familiar, reaparece em vitrines de prestígio — como uma peça de cerâmica antiga, com brilho novo, tal como uma tigela de faiança de Viseu. E em mesas ora bordadas de rendas ora de silêncios, continuam um dos aconchegos da alma Viseense
Pode ser presente — de Natal, de Páscoa, de aniversário — numa caixa com laço encarnado. Ou então, apenas, porque sim.! Porque a cidade sabe bem quando partilha um pastel. No Palácio do Gelo, numa tertúlia, numa mercearia da ponte, ou à sombra das árvores da cidade.Com uma taça de espumante ou uma colheita tardia do Dão, escolhido por quem sabe. -- saber bem, sabe!
Como escreveu o botânico Lamarck em Encyclopédie Méthodique – Botanique (1792):" O feijão peruano tem sabor doce e alimenta bem os pobres”. Sim, alimentou corpos e imaginários, foi sustento e sobremesa—mas, o pastel de feijão, foi e é ----poesia!
Referências
Lamarck, J.-B. (1792). Encyclopédie Méthodique – Botanique. Paris.
Simões, I. (2001). Doçaria conventual portuguesa: entre o segredo e a arte. Lisboa: Colibri.
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