Os porcos feios e maus

Os porcos feios e maus Os porcos foram domesticados no médio Oriente à cerca de 7000 anos, depois das ovelhas e das cabras (9000 A). Mas eles precisavam de lama, sombra, não produziam leite e comiam os mesmos alimentos que os homens, então, não havia grande lucro em criar porcos. Nas comunidades do Médio Oriente que combinavam pastoreio com agricultura, os animais domésticos eram uma fonte de leite, queijo, couro, fibras, tração para lavrar ou carregar e, no final da vida, a possibilidade adicional de obter carne magra. Desse ponto de vista, a carne de porco era certamente um artigo de luxo, objeto de luxúria valorizada pela sua carne macia e gordurosa. Ao longo dos séculos: à medida que a agricultura e a pecuária ruminante se desenvolveram, o desmatamento aumentou, a sombra diminuiu e os poucos locais frescos, fizeram do porco uma espécie cada vez mais excecional, um luxo ecológico. Por outro lado, a população humana começou a crescer o suficiente, para precisar dos alimentos, que até então eram destinados aos porcos (trigo, milho, etc.). O Médio Oriente era então um lugar inadequado para criar porcos, mas sua carne era uma iguaria e as pessoas da época achavam difícil resistir à tentação, então, tanto Javé como Alá, decidiram que comer carne de porco era uma impureza. Era preferível proibir completamente o consumo de carne suína e influenciar a criação de cabras, ovelhas. Como argumenta Marvin Harris(antropólogo dos EUA), “a religião ganha força quando ajuda as pessoas a tomar decisões que estão em consonância com práticas úteis preexistentes,” mas menos óbvias, e os “tabus também cumprem a função social de ajudar as pessoas a se verem como parte de uma comunidade”…” Um tabu é, portanto, um instrumento de identidade”. Já na Alta Idade Média, na Ibéria, os rabinos judeus reconheceram essas inconsistências. Moisés Maimónides (que foi médico de Saladino no século XIII) deu uma explicação mais “sanitária”: ele disse que a proibição da carne de porco era algo como uma medida de saúde pública tomada por Deus, porque a carne de porco (de acordo com Maimónides) “tinha um efeito ruim e prejudicial ao corpo” E entre os cristãos’ apesar das Sagradas Escrituras não imporem qualquer interdição alimentar. a liberalidade de Jesus Cristo em questões de comida às estritas normas que mais tarde a sua igreja medieval imprimiu ia um abismo . O porco também é um pouco desvalorizado, apesar da delícia da sua carne. e das pestes e fomes… . Á medida que a crença de que a carne despertava o apetite sexual, ganhava terreno e se a carne tinha pecados , havia que normalizar o seu consumo e foi o que fez a Igreja Católica ao instaurar dias de abstinência de carne. de jejuns e a não menos famosa, bula da Santa Cruzada que desde o séc. XI vigorou até ao Vaticano II . Na Europa cristã o porco também serviu para simbolizar os vícios da gula e da luxúria na pintura .Hieronymus Bosch frequentemente descreve isso dessa forma. O anti judaísmo medieval no séc.XVI, usa a figura do porco para simbolizar os judeus. Aliás a importância do porco como diferenciador religioso, foi de tal maneira, que, um dos nomes pelo qual é conhecido um judeu convertido e que na intimidade, continuava a manter as suas antigas tradições. era, marrano. Mas o porco não tinha só defeitos. Ele tinha e tem representações positivas como companheiro de Santo Antão.( orago de17 de janeiro) Os médicos medievais especialistas em pulsos e sangrias, notaram alguma proximidade ao ser humano, usando o corpo do porco para dissecação, já que as autópsias estavam proibidas, pelas 3 religiões de Livro (na universidade de Salerno séc. XI a séc. XIII já se estudava pela Anatomia Porci) É possivel que a cor escura do porco (o porco rosa só apareceu na Europa no século XVIII) tenha sido prejudicial na sua simbologia .Todos estes preconceitos vão contra os factos científicos que demonstram que o porco é o animal mais inteligente d e uma exploração agrícola O sistema simbólico com o tempo atenuou-se e reverteu-se. O javali representava os valores de força e coragem, enquanto a porca com os bacorinhos simbolizava a fertilidade e a prosperidade. No século XX, tornou-se mais próximo do homem, como animal de estimação .Aliás, poderam substituir simbolicamente os humanos, como em Animal Farm (1945), de George Orwell, onde os porcos, líderes da revolta, são transformados em opressores. É também o animal que mais contribui para a indústria farmacêutica, através da insulina por exemplo. Sendo dos mais estudados no respeitante aos xeno enxertos. E fundamentalmente sabemos que a sua carne é uma excelente fonte de nutrientes, em particular proteína, ferro, zinco e vitamina B12. Tal como dizíamos na Escola Primária nos anos 60, dizemos que o porco é um animal doméstico e serve para a nossa alimentação. Referências L Jacinto García “ Comer Como Deus Manda .2000 Pàg-49-55 Michel Pastoreau Gallimard, 2009, 159 páginas, col. Descobertas A Biblioteca | 4 de setembro de 2009 | História da alimentação | 0| Na coleção Découvertes de Gallimard,

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