Novos tempos, velhos medos I
Novos tempos, velhos medos I
Um saber moderno, trouxe argumentos positivos em relação ao consumo de carnes vermelhas (porco e vaca) que dissiparam atávicos receios que contra ela têm, muitas pessoas. No entanto hoje, existem outros pesadelos .
O homem é um ser omnívoro, capaz de obter os nutrientes de que precisa para viver ,de uma enorme variedade de alimentos, tanto de origem vegetal como do reino animal.
.Os produtos de origem animal “carne, leite, ovos “ainda que não sejam totalmente indispensáveis para a sobrevivência, constituem uma fonte especialmente estimada de nutrientes, sobretudo em proteínas de alto valor biológico .
Neste sentido alguns antropólogos, atribuem um papel determinante no processo evolutivo do Homem, ao progressivo aumento do consumo de carne, por parte dos primitivos hominídeos, e já que segundo este raciocínio, a caça favorece e exige a posição bípede, o que melhora, o campo visual e deixa livre as mãos, para manipular objetos, para além de estimular a cooperação, a comunicação e outras competências cerebrais .Em apoio a esta teoria, segundo os seus defensores, está o facto indiscutível de que os animais carnívoros “ os felinos , as aves de rapina etc.) desenvolveram uns órgãos sensoriais muito mais finos e agudos, que os dos herbívoros .
Pois bem, apesar deste ou de outro raciocínio, os mistérios da nossa complexa e contraditória relação com a carne, longe de estar clara, mantém-se na atualidade, turva, ainda que com novas premissas e protagonistas.
A produção intensiva de carnes vermelhas foi e é galopante e quanto maior é o nível de vida de uma sociedade, maior foi o seu consumo. A grande maioria da população dos países ricos, pode comer quanta carne quiser. Ela perdeu o carácter diferenciador e exclusivo que a carne possuía (classes privilegiadas),e os consumos são norteados quer queiramos quer não, por lobbis poderosíssimos das empresas dos produtos de carne.
Porém, desde os anos 80 o consumo de carne, não só, não se incrementou como também; desceu, os cidadãos dos países mais desenvolvidos, decidiram comer menos. Aliás onde mais aumentou o número de vegetarianos foi em alguns países de forte tradição protestante, tais como o Reino Unido a Alemanha EUA,( em que a carne não puxe pela carne isto e’ controlo religioso sobre ela, desde há vários séculos). Os motivos desta mudança de atitude, são, no entanto, de diversa índole:
1º, os médicos, novos legisladores morais, apoiados por estudos de caracter científico, fizeram e fazem eclodir mensagens sobre os perigos das carnes vermelhas (vaca e porco) e processadas(. carnes fumadas, salgadas ou curadas em que há adição de conservantes). Milhares de estudos relataram uma associação ,entre o alto consumo de carne vermelha e carnes processadas e um risco aumentado de diversas doenças crónicas e mortalidade prematura (doenças cardiovasculares, diabetes tipo II e neoplasias colorretal em particular ).
2º Os movimentos pacifistas e ecologistas também contribuíram em parte nesta mudança de postura. Trouxeram um ideal, que embora revestido de formas aparentemente novas, é tão antigo, como a própria cultura grega-latina. Na recusa da carne( símbolo de violência, de crueldade, de ostentação) e na defesa de uma alimentação mais frugal e vegetariana e como tal, numa ecologia irmanada, com a vida natural e com a paz.
3º Por outro lado, não é disparatado pensar que o sentimento de angústia moral que costuma acompanhar o ato de matar um ser vivo, é algo inerente ao ser humano, desde um tempo antigo. Esta angústia é tanto maior, quanto mais próximo esteja do homem esse animal, Multiplicaram-se os P.A.N(Partido Animais e Natureza)
4-ºO Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estima que 25% dos gases de efeito estufa (GEE) são resultado da pecuária e do desmatamento resultante. Parece pois claro, que reduzir o nosso consumo de carne é essencial para preservar a saúde dos humanos e a do planeta
.Mas quais são os modos e etiologias que explicam os efeitos nocivos dessas carnes vermelhas? Investigadores acusam; “o seu alto teor de gordura saturada, alto teor de ferro heme, a formação de compostos cancerígenos (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos) durante o assar ou fritar e a presença de conservantes como nitritos e nitratos”.
Mas, segure-se bem ! Segundo os investigadores destes estudos, o nosso consumo de carne vermelha deveria de ser ocasional e recomendam que esta deveria de ser substituída por outros alimentos ricos em proteínas, tais como peixes, aves domésticas, nozes e legumes e leguminosas. Não é obrigatório eliminá-las da alimentação, mas comer porções menores e ter dias sem carne
As novas elites distinguem-se pelo cuidado do corpo e a moderação à mesa, onde os vegetais e as leguminosas são os novos protagonistas. Só um povo rico e esclarecido, com uma dispensa variada, reúne as condições adequadas para se permitir à redução voluntária do consumo de carne.
Em resumo, a carne é o alimento mais desejado e mais procurado, mas também o mais discutido e recusado. Prova disso são os numerosos tabus que religiões e culturas tão diferentes estabeleceram sobre o seu consumo. Esta dicotomia amor – ódio, longe de desaparecer com o transcorrer dos anos está bem viva, apesar de um discurso contemporâneo mais racionalizante e menos religioso,
L. Jacinto Garcia Comer como Deus manda “pág 64).
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