Final Pascoa e Folares
Final Pascoa e Folares
A Páscoa era a principal festa religiosa dos judeus instituída em comemoração da sua libertação do jugo egípcio. O cristianismo recebeu do judaísmo a celebração da Páscoa, conferindo-lhe, porém, novo significado -o da festa da ressurreição de Cristo. A Páscoa sendo a mais importante festividade do calendário cristão é também, tempo de confraternização da família, o que deu origem a um ciclo etnográfico específico --o ciclo Pascal - todo um caminho iniciado com a Quarta-feira de Cinzas como Domingo de Ramos ( com o ramo de oliveira e odor do alecrim),a procissão das velas do Senhor dos Passos ao Sábado de Aleluia (dia fazer o Folar) e o esperado dia de " Festa " o da timidez vencida o da partilha da amizade - o Domingo de Páscoa .
Com as famílias reunidas em comunhão física e espiritual, á mesa, o fim da proibição da carne era celebrado. Após um longo período de jejuns e abstinências da Quaresma, voltou a” valer carne” e sempre e de todos os feitios e “uma vez mais, com o que se tinha à mão”. No Alentejo era o Borrego e o cabrito, no Porto o lombo do boi , a chanfana e o Leitão na Beira Litoral ….mas carne sempre!. E por vezes, pelo facto do bacalhau ser “signo da quaresma” era contestado; ora a través dum popular versalhar (Aleluia, Aleluia, Aleluia/,que já é festa,/ Quem tiver bacalhau / bata com ele na testa) /recolha de Jaime Lopes Dias na Beira Baixa ) ora sobe a forma cerimoniais como o ou do réu(bacalhau) cujo crime era o de ter enjoado os estômagos e os paladares durante o período quaresmal. Ao que parece a condenação do delito, acabava na "sepultura" nos estômagos dos organizadores da Festa (Figueira da Foz e outras localidades)
Parafrafreando Ernesto Veiga de Oliveira o folar em sentido genérico é todo presente cerimonial da Páscoa seja ele o que o padrinho dá ao afilhado, seja o donativo que se oferece ao padre aquando da visita Pascal ou possa ser de bola própria do ciclo Pascal ,oferenda de ovos e amêndoas
O folar bolo feito com farinha do cereal “o trigo”(,o mais cobiçado desde o fundo dos tempos,o mais fofo,o mais leve, …. o mais alvo.! Porque na mistura com os ovos, com o azeite, com o leite ou com a manteiga, resultaria uma receita, simples, mas extraordinária.! Porque o alimento enquanto expressão de gratidão exige a procura da excelência(ou não fosse a gratidão, a “memória do coração “)). Mas sempre , com aquilo “que se tinha á mão”. pois o mais difícil e incrível seria sempre o como combinar, ora a quantidade de cada um dos ingredientes, ora a escala e a ordem dos mesmos, e resultante disso, obter sabores tão distintos. Daí dizia-se “ cada terra sua bôla e seu folar” e suas gentes, diremos nós ”
Assim aprendendo com o etnógrafo Ernesto Em todo o sul do país aparece o folar doce E um bolo c e doce feito de farinha de trigo ovos leite azeite, com o banha açúcar e fermento temperado com canela e erva-doce e encimado por um ou mais ovos cozidos inteiros, por vezes tingidos as minhas nada percebi encostado sobre a massa e sob tiras da mesma que parcialmente os cobrem em cruz ou em grade
folar de Trás os Montes aqui o bolo da Páscoa é uma bola redonda em que a massa confecionada de farinha ovos leite manteiga azeite contendo no seu interior bocados de carnes variadas sobretudo porco presunto chouriço e salpicão -o chamado folar gordo
Entre Douro e Minho o bolo Pascal é o pão de ló. A sua actual industrialização faz dele um produto corrente de pastelaria,mas não lhe retira o caráter do manjar típico de das refeições festivas
Assim, na Beira Alta surgia o Folar feito farinha de trigo, ovos, azeite, aguardente, mas sem açúcar
Na Beira Litoral já predominava o Pão doce da Páscoa,...Bolo de Ançã
No Algarve, , onde a aguardente de medronho parece fazer simbiose perfeita com a massa adocicada, pela canela e açúcar amarelo, emergindo assim uma pletora de deslumbrantes Folares portugueses nessa área, de bolo cerimonial da Páscoa
A festa Pascal é das mais curiosas festas, nas quais o ovo é rei, símbolo da renovação, de uma nova vida e para alguns “de passagem para outra vida”. (os Etruscos o pintavam-no nas paredes de locais funerários)., não é de surpreender que tanto dos costumes tradicionais desta época se pre Em Portugal os ovos naturais permanecem como presente cerimonial típico, entre Douro e Minho em Trás os Montes e nas Beiras . São oferecidos ao padre na visita Pascal depois de ele dar a Cruz a beijar a todos os familiares e ter provado os doces e o vinho do Porto, que lhe apresenta quem pode. Ovos crus ora tingidos ( cozidos com casca de cebola ou por outros processos caseiros) ou decorados com inscrições ou desenhos, obtidos por processos adicionais ou por pintura direta, apesar de serem para ornamentar o centro da a mesa, onde se encontra o folar do padre, cabendo depois às crianças . Porem influencias cosmopolitas generalizaram o uso de ovos de chocolate com ou sem confeitos dentro --parece ter sido em França no século XIX que ouve a ideia de substituir os ovos verdadeiros por ovos de chocolate--- que vemos nos dias de hoje vulgarmente.
Do peitoril da minha janela, ainda recordo as visitas pascais na minha Beira de pendor transmontano onde,pude sentir a comunhão no sacralizar do profano na mesa exposta do pobre ou rico onde se saboreava -,para além do pão, do bolo de azeite, da bola de carne, dos ovos, das amendoas e das inevitáveis Cavacas de Freixinho,- mas, a rodela do salpicão( que para uns era salsichão )e o d vinho ,( o da casa)eram sempre singulares e identitários de diferentes sabores,cheiros,paladares, travos,adstringências -signos.
Todos estes folares fruto de um convivial e fraternal, trabalho do Homem, fizeram tradições e culturas num ontem, mas ainda acordadas pois são , como os humanos ,polifórmicos como as ondas do mar . Acabámos de sacralizar o Profano !
Festividades cíclicas - Ernesto Veiga de Oliveira
Comentários
Enviar um comentário