“ a castanha não quer água ;nem do Céu nem da Terra"
A castanha é consumida pelo Homem desde a pré-história, surpreendeu-me saber que as fontes existentes, referentes ao fruto (maioritariamente escritas), cobrissem um período de cerca de 26 séculos!
O castanheiro europeu, que produz a castanha que hoje comemos,já estava bem implantado na Grécia e suas colónias (nomeadamente na Sicília e na península itálica). Os Romanos terão dado um impulso para o cultivo da espécie nos seus domínios. Nomeadamente em Portugal, teriam -se intensificado, as formas mais evoluídas de castanheiros pois, já os haveria nas velhas florestas na Lusitânia, pelo menos as formas de castanheiro bravo.Do famoso médico grego Galeno de Pérgamo século II as suas recomendações sobre as castanhas também chegaram até hoje, onde diz “ dão ao corpo mais nutrição do que qualquer outra selvagem fruta mas geram gases, inchaço e constipação e provocam apetite venéreo e comendo uma quantidade delas, dão dor de cabeça” uma perigosa combinação do bem e mal que esta luta fruta traiçoeira já que está em desacordo devido a puramente convenções sociais e de prazer, ter vontade de fazer amor e explodir de passar gases, o pior a se tiver dor de cabeça, era complicado para nos amantes de castanha, aliás vai dar sempre disse se que era para ir dar uma castanha e com razão como vemosDurante a Idade Média, mas acentuadamente nas regiões pobres, as castanhas tiveram um decisivo papel na alimentação. A castanha não era simplesmente uma iguariazinha para comer no fim de uma refeição, mas era um alimento que durava parte do ano e era um alimento fundamental para os nossos avoengos-alimento de resistência. daí o ditado popular “da castanha ao cerejo bem me vejo, do cerejo à castanha mal me vejo” No entanto,a castanha é de curta duração e o homem teve que inventar técnicas para a tornar mais duradoura( artimanhas) O castanheiro chegou a ser conhecido pela árvore do pão. Mas a “economia da fome” em tempos de penúria de cereais buscava socorro nas favas,e os que podiam, os montesinos, deitavam mão á castanha O quinhentista Gil Vicente, ao invocar a Beira -Serra «dois mil sacos de castanha, tão grossa, tão sã, tamanha / que se maravilhará / onde tal coisa se apanha».
Com a chegada do milho e do feijão no sécXVI e até á tímida efetiva implantação nos país da batata na última metade do séc xix,a situação da castanha pouco alterou, nas Beiras e Trás os Montes continuava a ser um alimento predominante sobretudo para fazer pão durante metade do ano comiam castanha )Porém nos fimnais do séc.XIX surgiu a tinta, provocada por um fungo que fazia uma infecção da raiz do castanheiro, tragédia, que matou os grandes soutos europeus e não poucos em Portugal, Foi imperativo o recurso á batata, que pouco a pouco foi substituindo os lugares onde o castanheiro ia morrendo.
Em inícios do séc XX ,Leite Vasconcelos regista; que os camponeses de algumas regiões de Trás os Montes tinham como prato essencial, “uma papa feita com castanha e leite# que não parece ser muito diferente da que alimentava os pastores montanheses .
Até á segunda metade do século as castanhas entravam largamente na alimentação hibernal dos transmontanos e beirões das terras frias, onde havia um mata-bicho ou a ceia onde era consumida assada ou cozida, ou em caldo, (desempenhava assim um papel que viria a ter as batatas na idade moderna)
Nos nossos dias, com o desenvolvimento económico verificado, com a publicitação de novas culturas alimentares os hábitos gastronómicos transformaram -se e transformam a Gastronomia lusa . As castanhas por serem lembrança de tempos difíceis da “economia da fome,” viram-se limitadas a uma função quase etnográfica, limitaram-se a ser alimentos de “rituais em festividade cíclicas”
. Ritualmente são lembradas no 1 de Novembro , no dia de S Martinho e em esporádicos magustos.Mas atenção,o comer castanha, não foi morrendo somente pela modificação de hábitos alimentares ou pela tinta, foi também, porque pouco a pouco, deixamos perder uma tradição culinária de utilização das castanhas, como se perdeu também uma tradição culinária da utilização do mel em certas formas de doçaria, é por isso que é imperioso reformular e diversificar as suas formes de utilização. Como? distribuir livros de receitas, panfletos com receitas e vulgarizar experiências e experienciar combinações, com novos alimentos ,realização de concursos ….
Cozidas ou assadas, as castanhas podem ser saboreadas de mil maneiras … ser piladas, isto é, secas ao calor (a sopa de castanha pilada ou caldudo) ou cozidas com leite- podendo ser chamadas a desempenhar papel de relevo em culinárias mais elaboradas para recheio de pratos de perus, patos e gansos e outas carnes como é frequente na cozinha francesa suiça ou italiana Na doçaria não é despiciente o seu contributo, surgindo em biscoitos,queijadas, bolos, cremes,pudins, gelados,até às famosas marrons
Porquê dar-se,hoje, tanto relevo á castanha ? Resposta,porque num estudo cada vez aprofundado,verifica-se que os seus benefícios nutricionais são uma mais valia e foram e são menosprezados.
Assim, relembremos o seu curriculum Vitae, é um fornecedor primordial de hidratos de carbono (amido e sacarose) (50% da sua constituição) tem uma quantidade de fibra e proteína( de elevado valor biológico para um vegetal ) muito apreciável que a torna interessante alimento do ponto de vista do controlo de apetite. Pobre em gordura, mas nestas últimas, são significativas as quantidades dos ácidos linoleico e alfa-linolénico, os quais contribuem para a prevenção de doenças cardiovasculares. Contém ainda razoáveis quantidades de vitaminas do grupo B, e boas doses de vitamina C, cobre e manganésio em doses menores, o magnésio, o fósforo e o Folato.
No perfil fitoquímico das castanhas predominam flavonóides e compostos fenólicos São também relevantes as quantidades dos aminoácidos livres, asparagina, e ácidos glutâmico e aspártico e, ainda, o célebre GABA ( ácido gama-aminobutírico,) um neurotransmissor de acalmia (anti stress).Destacando-se destes, o ácido gálico,um promissor agente antioxidante e agente anti cancerígeno em múltiplos estudos de investigação.
O castanheiro provindo da Amazónia deu-se por cá tão bem que não deixa de sorrir quando o fruto, de maduro, lhe rebenta o ouriço em gargalhadas e as meninas castanhas se debruçam, travessas, de seus valentins de espinhos. Do chão pílula ou de arriba diz lá de la se empanzinam gentes e os sacos que vão para os mercados e viajam para a estranja
Não comer castanhas neste Outono ,é perder a oportunidade de desfrutar de um sabor único como o é o deste fruto, ao mesmo tempo de comemorar a sociabilidade, numa festa de tradições seculares ---o magusto.E no tempo das castanhas exclamações queimavam -se vides para fazer braseiro onde elas rebentavam como foguetes, que um magusto é sempre uma festa.
“ a castanha não quer água “ . nem do céu nem da terra "diz o povo -só de geropiga,acrescentamos nós
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nome feminino
1. BOTÂNICA semente do ouriço (fruto do castanheiro), rica em amido, geralmente consumida assada ou cozida, sendo também usada no acompanhamento de pratos culinários e na confeção de doces
2. pancada na cabeça com os nós dos dedos; carolo
3. excremento de burro ou cavalo
4. rolo de cabelo
5. (construção) peça usada para o fecho de cofragens, geralmente aplicada com ferramenta própria; castanheta
6. CULINÁRIA pequeno doce de origem conventual, típico da zona de Arouca, feito com ovos, açúcar e amêndoa e formato semelhante ao da semente do ouriço
7. gíria heroína
castanha pilada
castanha descascada e seca
estalar a castanha na boca a
ficar espantado, surpreendido ou logrado, por ter sucedido o contrário daquilo que se esperava
Do latim castanĕa-, «castanha; castanheiro»
proverbio
As Castanhas apanham-se quando caem.
» Do Cerejo ao castanho, bem me avenho. Do castanho ao cerejo, mal me vejo.
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