AS ESPECIARIAS E O ALENTEJO
No fundo da memória e dos tempos, a Europa conheceu produtos/especiarias oriundos do oriente. Mas, foi sob a influência da medicina árabe e hispano-árabe (califado de Córdova) que eles se tornaram omnipresentes entre nós. Graças aos ensinamentos dos físicos de então e à fantasia dos comerciantes árabes, os europeus acreditam serem essas especiarias uma espécie de panaceia para a virilidade, a cura de todas as maleitas… a longevidade.
Para além de uma melhor conservação e condimentação dos alimentos, elas vieram aumentar a farmacopeia ocidental, tornando-se, assim, fonte de cobiça. Daí a ambição de se chegar às Índias. Daí o soltar das velas, o aproar das naus, o rasgar de oceanos. O Velho Mundo correu então, ávido, atrás da intuição… e dos sentidos.
Também as gentes do Alentejo souberam que o seu destino se cumpriria Além.
Desprendidos de tudo, carregados do nada… da angústia, anónimos e `` barões assinalados´´ -- Gamas desta pequena pátria assustada – sentaram-se nas galés e remaram até onde o escorbuto deixava… remaram… para a Índia.
Assim o fez também Garcia da Orta, ``o ervas de Castelo de Vide´´, conhecedor que era da medicina árabe por intermédio de Avicena e Maimónides. Testando em Goa, em alquimias várias, a utilização das plantas exóticas, legaram à Humanidade os seus ``Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinaes da Índia´´. A honestidade desta obra, a independência mental do autor e a novidade do seu conteúdo, ao dar a conhecer plantas e drogas até aí desconhecidas no ocidente, personifica a postura alentejana, tolerante, simples engenhosa no experienciar. É este saber-estar que o Alentejo traduz numa geografia de aromas, numa arquitectura de sabores.
De facto, em mais nenhuma outra zona do País os ingredientes são usados de forma tão alquímica como o são, ainda hoje, no Alentejo. Aqui, a permanente atmosfera muçulmana de uma cozinha que, ombreante com a medicina, revela a preocupação de ser feita e pensada em função da época do ano, da idade… da saúde.
É nesse passado mourisco que mergulham as raízes de quase toda a gastronomia alentejana. Uma gastronomia simples mas singular, de sinestesias múltiplas. É a açorda (a tharîd árabe)- pão embebido num caldo fragrante e regado com azeite ), a sopa de beldroegas, as migas, o escabeche, o manjar branco… Simples… Exóticos… Singulares.
Em cada prato, a cor quinhentista do açafrão, o cheiro do cravo, da canela e o paladar de uma magia, que fizeram com que Portugal partisse à descoberta do desconhecido… e de si próprio. Em cada prato, o encontro com a História de uma terra e de uma gente que assume a sua pobreza, mas nunca a sua miséria.
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