A limpeza a ideologia e a medicina
Globalmente podemos dizer que a higiene corporal foi prescrita na Bíblia e cultivada pelos egípcios, gregos e romanos e estes,criadores das Termas(banhos públicos).
Durante a Idade Média, os hábitos higiénicos foram progressivamente abandonados. Desconfianças múltiplas, as catastróficas epidemias.. fizeram vingar no pensamento médico "a teoria do miasma "( perdurou para além do iluminismo.) Esta, ao mesmo tempo que alertava para a transmissão de doenças pelos” maus ares”, condenava o banho, que poderia abrir os poros da pele e assim, facilitar a entrada de “eflúvios” perigosos.
Na época das descobertas,os portugueses quando chegaram ao Brasil intrigavam -se com o hábito dos nativos de se banharem por diversas vezes ao dia. "É curioso como eles mantém o corpo limpo, lavando-se frequentemente, observava assim, um navegador a propósito dos" indígenas.”
Nos séculos XVI e XVII, para além da teoria do miasma ,sob o ponto de vista religioso na Europa cristã ,a água era mal-afamada. evitava-se o banho porque dava prazer,era um ato de luxúria, incitava ao pecado. Nos tribunais da Santa Inquisição, banhar-se com frequência era sinal de heresia de Maomé. Nos seus registos era comum a frase: «o acusado era conhecido por tomar banho». O asseio do corpo era visto com suspeita e tomar banho era uma prova de abjuração para judeus e muçulmanos. Para o Santo Ofício as pessoas limpas não tinham de se lavar; monges, eremitas e santos ,viviam sem qualquer tipo de banho.Nem aristocratas ou a família real escapavam à imundície. Mudavam de roupa, punham perfume, porém não se lavavam. Disfarçavam a falta de higiene, mas não se livravam dela. Os livros de saúde e civilidade aconselhavam só a toilette seca, lavagem das partes visíveis do corpo, aquelas que o vestuário deixava a descoberto, rosto e mãos, com um pano húmido. O branco do colarinho e punhos converteu-se num código social, cabendo-lhes sugerir o que não se via. A roupa branca, limpa como a água, mas sem os perigos dela.
Após a epidemia de cólera de 1832 em Londres que tinha demonstrada a conexão entre doença e miséria Edwin Chadwick,promoveu a “lei dos pobres” em 1834 e elaborou uma legislação de proteção à população pobre,baseado na “ideia sanitária” e influenciado pela teoria do miasma, como causadora da doença recomendava uma extensão dos serviços de saneamento básico, no entanto,também acreditava que o saneamento básico deveria ser associado ao saneamento das mentes. Corroborado pelo.Dr Richardson.( 1818,-1896) na sua utópica obra “Hygiéia:uma cidade de saúde” que afirmava-,“Limpemos as nossas roupas, nossos corpos, nosso alimento, nossa água e os mantenhamos limpos. Limpemos nossas mentes e as conservemos limpas., assim, implicítamente “O estado de limpeza é um indicativo da conduta moral”
Nos finais do séc.xix e princípios do séc.xx,com a denominada revolução pasteuriana e com as descobertas de Robert Koch( agentes infeciosos do antraz e o bacilo da tuberculose e o vibrião da colérico) foram estabelecidos os postulados básicos da teoria microbiana da doença e as preocupações de alargamento do saneamento sanitário, a produção de sabão e sabonetes (da revolução industrial) aumentavam os níveis de limpeza e higiene dos europeus . Entretanto, surgiram, inexplicavelmente, almas caridosas e inquietas que projectaram os suas angústias para os outros, isto é, passaram a considerar os subdesenvolvidos, os indígenas, não apenas sujos, como perigosos chegando-se - Nós os limpos, os bons, e os outros,” os porcos sujos e maus.” era necessário, evangelizar a limpeza pelos impérios.
A sobrevalorização da higiene seguramente ajudou a evitar doenças e este foi o seu lado solar; mas o seu lado lunar,foi o que a obsessão com a limpeza, trouxe para o plano ideológico, que iria alimentar as doutrinas racistas, que se propunham a “limpar o mundo de seres inferiores”.
Esta hipervaloração da higiene atravessou também a medicina e as suas posturas. Alguns médicos da época ,suspeitaram que a sujidade não estava só no exterior, “as fezes quando retidas poderiam envenenar o organismo,”e assim “a prisão de ventre” passou a ser olhada como a “fonte de todos os males”
Em 1913,Sir Lane cirurgião famoso de Londres, começou a refletir sobre o significado evolutivo do intestino, e concluiu,tratar-se de uma fossa séptica no organismo, que promove a multiplicação exagerada de bactérias. E começou a remover porções crescentes do intestino de seus pacientes, a fim de acelerar o trânsito intestinal e se livrar desse saco de resíduos e promover a “limpeza”,as suas teorias encontravam suporte "científico"em Metchnikoff,vencedor do Nobel de Medicina (1908)que defendia que os intestinos estavam destinados a desaparecer ,graças à " evolução das espécies" (Darwin,)e exemplificou com o facto dos papagaios terem intestinos curtos e levarem uma existência feliz.
A chave para a saúde, de acordo com Sir Lane, estava na velocidade do trânsito intestinal e o inimigo que nos espera é a prisão de ventre, a fonte de todos os males. E..., na sua cruzada pela saúde e bem-estar da humanidade, removeu todo o intestino de não um, mas de centenas dos seus pacientes.
Os resultados dessas colectomias totais ,foram, de acordo com uma conceituada revista médica londrina da época, "não apenas brilhantes, mas quase milagrosas".(desde que houvesse um WC por perto diremos nós, hoje).
Foi precisamente esta aceleração do trânsito que condenou ao fracasso a brilhante ideia de Sir Lane.Em 1926, viu-se forçado a abandonar esta prática, e a aceitar e a promover o exercício e uma alimentação equilibrada, de forma a assegurar a "limpeza" intestinal”
Foi pena Sir Lane desconhecer o efeito da "Broa de Avintes", melhor que sabão.
JLNA
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