As democráticas Favas
As Democráticas favas
A fava é originária do Crescente Fértil. Os primeiros achados arqueológicos são datados de seis a sete mil anos Ac. Foi o legume mais significativo na área Mediterrânica, disseminando-se pela Ibéria e a partir daqui, para a América e o seu consumo rapidamente foi global.
O baixo custo, elevado valor nutricional, facilidade de conservação e armazenagem (consumia-se muito sob a forma de favas secas), fizeram-nas habituais, nas mesas de ontem. Numa época em que se sussurrava e interiorizava “do Cerejo ao castanho, bem amanho, da castanha ao Cerejo, mal me vejo”, o Mediterrâneo arregalava-se com o espreguiçar da Primavera pois: “Favas o Maio as dá, o Maio as leva“ Que fazer? Arrecadá-las! como? Secando-as.
O consumo da fava está enlevado de muitas lendas e histórias desde a Antiguidade.
No Egito começou por ter muito sucesso, mas, posteriormente, deu-se a recusa completa, após ter surgido uma crença em que apareceu a expressão “campo de favas”, para designar o lugar onde repousavam os mortos e esperavam por viagem. Esta crença levou a que os egípcios nunca mais consumissem favas, já que prejudicavam a vida dos antepassados, que residiam dentro delas.
Na Grécia, sem essa crença, utilizavam-nas como boletim de voto para a eleição dos magistrados. Símbolo da democracia, opinava Aristóteles, ser a causa porque os pitagóricos a hostilizavam abertamente. Pitágoras (reconhecido pelo seu vegetarianismo, proibia-as por serem consideradas símbolo da procriação e politicamente partidário da Oligarquia.
Em Roma, aquando da comemoração das Festas Saturnais, era nomeado o “Rei da festa” a pessoa que encontrava a fava, previamente encerrada numa das três tortas de pão, que se repartia por todos os assistentes. A igreja católica acabou por cristianizar, esta arcaica tradição pagã e adaptou-a no ritual do popular Bolo Rei. A fava acabou por ser substituída por figuras de plástico ou metal, não como prémio, mas como compromisso, de pagar no ano seguinte o Bolo Rei para a família.
Na idade Média teve fama de bom alimento e foi muito popular. Entre nós, no séc. XV importaram-se para se poder colmatar a falta de cereais nos anos em que o estômago encolhia até à chegada das colheitas.
Usadas, nas eleições dos abades nos mosteiros medievais, em que os monges procediam à escolha do seu abade, através de um sistema de votação que, também utilizava a fava como boletim de voto. Quem estava a favor introduzia uma fava branca na urna e quem estivesse contra, introduzia uma fava escura. No final contavam-se as favas e assim “eram favas contadas " e ponto final na controvérsia.
Segundo autores, à época, no séc. XVIII, atribuíram-se-lhes propriedades afrodisíacas, pelo que, a sua distribuição foi vedada a alguns conventos femininos a título de prevenção da “lascividade inerente”, tal como mais tarde, os também lascivos espinafres e espargos. Aliás na vizinha Espanha, era frequente sussurrar-se a expressão “o caldo de favas faz as mulheres bravas”.
Ainda em plena segunda metade do séc. XX, em Portugal, em várias localidades, ouvia-se um citadino pregão matinal e melódico “Fava rica!”, apregoado por mulheres que traziam cestos à cabeça, tapados por panos brancos. Era a fava seca que iria ser demolhada em água e sal e temperada com azeite, vinagre, alho e pimenta – um prato de resistência diremos nós, hoje!
Como resistir aos apelos voluptuosos das frescas, jovens, farinhentas e tenras favas de Maio? Possíveis efeitos libidinosos? “Na cozinha portuguesa ocuparam um lugar relevante quer sob a forma de sopas, cozidas, em puré ou guisadas com chouriço. Contudo, hoje, o uso mais frequente na gastronomia portuguesa é sob a forma de "favas guisadas com toucinho".
Além do conforto que dá, a “fava rica” é rica em proteínas de origem vegetal e em amido, um hidrato de carbono complexo e gentil, que enche o organismo de energia. É uma leguminosa, das mais abastadas em fibra o que a leva a ser escolhida para efeitos de perda de peso. Abonada em ferro, vitaminas do complexo B, potássio, zinco, fósforo e magnésio, com este "minério", a fava certamente ajudou a adormecer a fome e os fantasmas às gentes mediterrânicas.
Nos dias de hoje, impõem-se a pergunta: qual será a causa da "miragem" dos "da outra margem" a fome de "minério" ou das "favas contadas"?
Referências
Carson I. A. Ritchie –”Comida e civilização “
Cesar Aguilar História da Alimentação Mediterrânica
José Quitério -” Livro de bem comer “
L .Jacinto Garcia-“ Comer como Deus Manda “
Pereira Ana Marques “Luís Sttau Monteiro Gastrónomo 154
Ifavalocução favafa.vaseparador fonéticaˈfavɐ
nome feminino
1. BOTÂNICA (Vicia faba) planta herbácea, anual, da família das Leguminosas, subespontânea e cultivada em Portugal, tem caule ramoso que atinge mais de um metro de altura, folhas grandes, paripinuladas, de formato elíptico, flores brancas ou rosáceas e vagens longas com sementes oblongas comestíveis (existem diversas variedades, cultivadas sobretudo pela importância alimentícia das sementes); faveira
2. BOTÂNICA vagem da faveira
3. BOTÂNICA semente comestível da faveira
4. BOTÂNICA designação comum, extensiva a outras plantas leguminosas, de características semelhantes às da Vicia faba
5. VETERINÁRIA doença que afeta os equídeos, que se caracteriza por provocar a inflamação do céu da boca
6. Brasil coloquial pequeno seixo, geralmente constituído por minerais fosfatados, cuja presença no solo é tida como indício da proximidade de diamantes
fava branca
voto favorável
fava preta
voto desfavorável
favas contadas
coisa certa, negócio seguro
mandar à fava
mandar embora, com enfado ou desprezo, por não querer ouvir ou aturar mais
pagar as favas
suportar prejuízo ou responsabilidade
Do latim faba-, «fava»nfopédia
Favas, Maio as traz, Maio as leva.
FAVAS
Para adivinhação de sonhos
ALFREDO ARGILÉS 12/08/2010
O povo sempre comeu favas. São famosos desde antes de os egípcios inventarem os ful medames - fava enterrado -, hoje prato nacional por excelência. Colocaram a fruta em um recipiente com água e enterraram-na entre as brasas. E para comer. Hoje decoram-nos, depois de cozinhados, com um pouco de alho, cebola e cominhos, mas a questão é a mesma, frescura do produto e simplicidade no tratamento.
Depois os gregos e os romanos comeram-nas com igual devoção, embora os primeiros lhes concedessem diversas qualidades alheias à gastronomia e próximas das crenças mais esotéricas, de tal forma que um personagem tão principal como Pitágoras - exemplo de racionalidade nas suas conclusões matemáticas - Eu as abominei.
Mesmo séculos depois, Cassiano Basus, autor da Geopónica, um belo tratado de mais de vinte volumes sobre o cultivo dos campos, dizia no século VI, com a sua cultura bizantina de Bizâncio: “O primeiro que dispensou a fava foi Amphiaraus, porque da adivinhação dos sonhos." Embora não valha a pena esquecer - quando comemos alguns michirones - a frase atribuída a Orfeu, aquele deus da música: “Comer fava e a cabeça dos pais são verdadeiramente iguais”. As favas tinham má reputação.
Estes mitos foram esquecidos - certamente por causa da fome - e na nossa Idade Média comia-se fava, o que era um prazer, sobretudo porque os produtos da horta eram deixados em benefício dos produtores - já que os senhores consideravam que não valia a pena participar de um benefício tão leve e fungível e impunha impostos sobre produtos menos perecíveis, como os cereais, que eram distribuídos em proporção justa aos porcos que criavam.
Mas os critérios estão a mudar e os costumes ainda mais, pelo que a partir do século XVII foi necessário ler autores como Nicolas de Bonnefous, que no seu livro Le jardinier français mostrou uma paixão desenfreada pelos pomares, que teve de ser seguida por toda a nobreza, pois os vegetais eram fonte de toda saúde.
A partir desse momento, os vegetais entram nas mesas mais subtis, nas dos grandes chefs, que refinam infinitamente a cultura culinária popular, que com ela convive e se desenvolve.Fava à inglesa -com manteiga-; os feitos com creme, com uma pitada de noz-moscada; os cobertos com bechamel; ou os feitos à provençal, com bacon magro, alface e cebola, são receitas do grande Escoffier, chef que foi um dos grandes hotéis Ritz quando tiveram sua maior glória e esplendor.
Ao lado coexistem representações de raízes profundas, como as favas com presunto, ou aquelas com alho jovem e chouriço à volta, típicas da cozinha valenciana. E aqueles outros que ajudam alguns pratos de arroz gozam do nosso favor, quer como únicos acompanhantes, quer em conjunto com atum, bacalhau,.
11/06/2020 cavaleiro
Diário – Maio as dá, Maio as leva
E, em Maio, temos outras coisas a chamar por nós. “Maio as dá, Maio as leva”. Pois, já adivinharam do que estou a falar, de favas. Essa leguminosa que tanto nos conta ao longo da linha do tempo. Provavelmente, uma das primeiras leguminosas a ser domesticada pelo homem.
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