MEDICINAS POPULARES
``A doença e seu tratamento são processos biológicos só em abstracto … o facto de que uma pessoa adoeça a classe de doença que tem, o tipo de tratamento que recebe depende fundamentalmente de factores sociais.´´
O papel da História Médica na Educação Médica,Erwin H. Acherknetcht
As práticas marginais à medicina oficial não só subsistem como se multiplicam. Paradoxalmente não são populações ofuscadas de obscurantismo na sociedade rural e longínqua, que as fazem sobreviver. Elas aparecem manipuladas em conjunto com o consumo da Medicina Oficial.
À sombra dos Hospitais Públicos e Centros de Saúde florescem curandeiros urbanos. Como explicar a existência de milhares de curandeiros em Paris (Cidade-Luz)?
Reconheçamos, a Medicina Oficial não é a gasua que abre todas as portas da Vida (saúde/doença). No entanto teima-se (no mundo ocidental) a fornecer aos seus protagonistas uma Educação Médica mais similar e uniforme, com planos de estudo standartizados – modelo burocrático-racional - , pensando que através dos mass media possa haver um entrosamento cultural e, assim, um possível derrube de barreiras de comunicação.
Contudo, elas existem. É que… as crenças e as representações mentais da doença/cura são polifórmicas, como as ondas do mar. O clima, as condições da vida, as actividades económicas dominantes, os valores doutrinais e, fundamentalmente, as concepções do mundo são os responsáveis por tal.
Autores como Sigerist chegam a afirmar que a própria Medicina Oficial sofreu um processo histórico-evolutivo em quatro etapas: ``magia, religião, filosofia e finalmente ciências ´´. São todas estas fases que, certamente, vamos encontrar quando analisamos os pedaços da nossa Medicina Popular.
Para estudarmos, é necessário trabalho de recolha e, sobretudo, descrevê-la com a objectividade que se exige ao investigador. Não cabe, por certo, ao médico sobrepor-se ao cientista social na revelação dos traços culturais da população que serve, mas exigisse-lhe um esforço grande de atenção para valorizar os elementos heterodoxos dos comportamentos dos seus doentes, enquanto reveladores de outras representações da doença, da cura e dos agentes da cura.
Entre nós, foi feita alguma recolha pelo Dr.Alberto Correia sobre rezas supersticiosas (cortar o ar, coser o pé, atalhar a erisipela, atalhar a peçonha, o mau olhado, o quebranto) e orações populares num artigo publicado na Revista Beira Alta e do qual respigamos o ``modo de atalhar o mau olhado´´:
Mau olhado – propriedade de provocar, com o olhar, voluntária ou inadvertidamente, desgraça ou doença em coisa, animal ou pessoa, atribuída a pessoa de olhar penetrante (pessoa ``de vista fina´´).
O objecto olhado poderá partir-se e o animal ou pessoa começaram a sentir perturbações mórbidas que logo se manifestarão por uma perda de apetite. Se não é atalhado poderá ocasionar a morte (``trespassar´´).
Ingredientes:
- Moeda antiga que no anverso ou reverso tenha uma cruz gravada (``dinheiro em Cruz´´)
- Colete ou casaco, de preferência rapaz. (Utiliza-se apenas para atalhar o mau olhado a animais).
Vão-se passando sobre o corpo da pessoa ou animal à medida que se vai repetindo o formulário.
Formulário:
Dois(*) te deu, Três te tirarão, São Pedro e São Paulo, e milagroso São João. Assim como do mar salgado sai o sal salgado, saia (desta pessoa, deste animal) todo o mal que lhe deram, ar ``cobrante´´ ou olhado. Se tedeu pela frente, que te corte São Vicente. Se te deu por trás, Que te corte São Brás .Se te deu à hora do meio dia, Que te corte a Virgem Maria.
P.N. e A.M.
(Diz-se cinco vezes e continuar-se-á repetindo, todos os dias, até à cura)
(*) Dois- os dois olhos da pessoa que tem a virtude de dar mau olhado.
No entanto, muito mais urge recolher e descrever, nomeadamente no que respeita à Medicina ``religiosa´´: orações, ex votos, bênçãos, relacionamento com santos protectores; Medicina mágica, Medicina natural (virtudes curativas das plantas medicinais), etc..
Convém registar que a fronteira entre a actividade religiosa e mágica é, por vezes, difícil de delimitar. Para alguns, a Religião deixa a decisão última de qualquer acção nas mãos de uma ou mais divindades que podem ou não actuar conforme achem ser ou não conveniente. A magia compele os agentes sobrenaturais a cumprirem as ``ordens´´ dos agentes mágicos desde que as fórmulas e práticas usadas sejam oportuna e adequadamente executadas.
Entre nós, é comum o mágico (curandeiro/bruxo) ser uma pessoa agraciada com o ``dom´´ o que lhe permite “ver” mais que o habitual, sendo, por isso, colocado ao serviço do combate à doença.
É polémica a sua intervenção.
Salientemos que o mágico usa, geralmente, uma expressão oral próxima do doente; aborda o seu mal-estar com uma linguagem que a este é compreensível; revela grande disponibilidade no seu conhecimento terapêutico, identifica o ser e/ou sobrenatural, vivo e/ou espírito ou outra qualquer causa da doença, procurando a estratégica mais eficaz para aplacar ou vencer o `´Mal´´.
Em relação à cura, quase sempre, esta consiste numa série de processos que têm como finalidade o rodear, encenar a doença, visualizá-la, fazê-la sair do corpo, tendo sempre em consideração que a doença é equivalente à Desordem e a cura implica, necessariamente, Ordem.
Quanto ao tratamento, este faz-se através da execução de rituais que passam pelas benzeduras e prescrições de tabus.
Na virtualidade de praticante da Medicina Clássica ( o que nos transforma em curandeiros da Medicina Oficial) fazemos um convite aos leitores: enviem-nos testemunhos – património – no respeitante a saberes populares, doenças e respectivas curas (mágicas, religiosas, naturalistas…).
Aqui fica o convite.
Artigo publicado no Jornal Voz no Interior Março de 1993
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