As Termas
“As caldas conciliam tudo, mudança de ares, exercício ameno,
banhos, copinho, peregrinação entretenimento e vita nueva.”
Júlio César Machado
Há milénios que a água, símbolo de limpeza e purificação é utilizada no tratamento das nossas maleitas. Do banho colectivo dos indus, no Ganges, ao baptismo dos cristãos, a sua ritualização é omnipresente desde o fundo dos tempos. Hipócrates, o pai da Medicina, refere a utilização terapêutica da água mas, é com os romanos que a acção hidro-medicinal atinge o seu maior esplendor. As termas romanas são descritas como autêntico eco-sistemas, cidades dentro de cidades, lugares onde se tomavam, também, deliberações económicas e políticas e, até mesmo, refeições… “Quinta do Lago e da Marinha” do nosso actual imaginário… Do ontem para o hoje, a diferença existente é que as mais célebres escolas de Medicina surgiram junto desses centros termais.
Durante muito tempo, os conhecimentos sobre águas são puramente intuitivos e empíricos. A simples constatação de uma ovelha ou um cavalo doentes que capricham em banhar-se em certa fonte e aparecem sarados, levam a trabalhos notáveis de físicos de várias épocas.
Entre nós, é a rainha D.Leonor (1484) quem primeiro evidencia interesse por esta realidade, assim como nos ficaram os estudos, numa busca de rigor, de Amato Lusitano, de Garcia da Orta ou de Pedro Julião (futuro Papa João XXI). No entanto, é com D. João V, rei amante dos prazeres da vida e aquista ferveroso, que começam a pulular as estâncias balneares, que atingirão o seu apogeu de fama e desenvolvimento efectivo entre os finais do século XIX e os anos 30 e 40 de séc. XX, quando os nossos avós “andavam a águas”. É então que a hidroterapia, prática sem grande tradição de honra entre nós (ciência bastarda, que só tardiamente passou a fazer parte das disciplinas nas faculdades de Medicina) é posta em causa pela revolução quimioterapia ocorrida no pós-guerra e, concomitantemente, pela substituição no imaginário do antiquíssimo culto das Águas pelo do Sol, símbolo da saúde, imagem de vitalidade e promessa de beleza. Esqueceu-se que a cura termal realiza uma reactivação fisiológica do organismo, da qual resulta uma melhor disposição dos meios de luta contra a dor, o espasmo, a inflamação e o stress da vida quotidiana.
É precisamente por tudo isto que as Termas têm de ser equilibradas ecologicamente, tendo em vista o poderem ser repouso e, ao mesmo tempo, entretenimento, capazes de fornecer a visceral vontade de conversar, comerciar e redescobrir mundos. É que, as amizades sem amanhãs têm o condão de desatar línguas como se a certeza do partir do outro e o seu não regresso desse garantias de privacidade. E, como os neurónios se recusam a envelhecer e não conhecem o reumatismo continuam a sonhar… a sonhar com o futuro, “vida antes da vida”…
Por isso, o tratamento termal, em Portugal, começa a reverdejar e, particularmente, no distrito de Viseu, um dos mais ricos em água minero-medicinal quer a quantidade, variedade, de tratamentos possíveis. As estatísticas de 1995 revelam que, o distrito contribuiu com 27% das inscrições termais no país e que, no ranking de frequência nacional, as Termas de S. Pedro do Sul ocuparam o 1º lugar, Caldas da Felgueira o 9º, Termas de Alcafache o 10º.No total, o distrito obtém 34% das receitas directas dos estabelecimentos termais portugueses.
Quem não prefere os horizontes rasgados e ares lavados que, em geral, rodeiam as estâncias termais, à promiscuidade e à poluição de que enfermam as praias? Já Ramalho Ortigão sugeria longos passeios pelos arredores das Termas, a fim de se banharem na "genuina tradição popular,oespecífico reconstuinte da adoentada alma potuguesa".
Assim, apostar nas Termas, sejam elas as de S. Pedro do Sul, as de Alcafache, as do Carvalhal ou as Caldas da Felgueira , de Sangemil, da Cavaca ou de Aregos é apostar no desenvolvimento integral do interior e no desenvolvimento harmonioso do país. A nosso favor e em relação aos outros países, temos melhores condições climáticas e preços mais baixos. Gostaríamos de, um dia, dizer que beber água (mineral) é dar de comer a 10 milhões de portugueses.JLNA
1997
Artigo publicado na revista Proviseu nº1
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