As Crenças e Representações Mentais da Doença e Cura
As doenças e a saúde são também ``construções sociais´´. Grupos sociais diferentes, constroem a sua visão do mundo, a sua escala de valores com que classificam a realidade. A este propósito é exemplar a ``noção de tuberculose´´: o sociólogo – relaciona-o com a pobreza (má nutrição/promiscuidade); o escritor romântico - ``doença do amor´´; o operário – como doença dos fracos; o médico – acha-a resultante do bacilo de de Koch; (até ser isolado o bacilo de Koch as histórias clínicas da TP eram, por vezes, tão laboriosas e tão românticas como algumas das nossas actuais histórias clínicas em Psiquiatria.
É-nos fácil compreender que, principalmente a população idosa e menos urbanizada, (que encara a doença como o castigo divino, onde perdura o mito do pecado original) recorra à medicina mágica e/ ou religiosa. Senão veja-se o contentamento com que aceita cumprir tabus (proibições mágico-religiosas cuja transgressão leva ao castigo sobrenatural) como por ex.: dietas, jejuns…
Veja-se, ainda, a disponibilidade com que aceita cumprir terapêuticas eivadas de dor (sacrifícios no cumprimento de rituais vários) como sejam: preferência por injectáveis; ``para ser bom desinfectante tem de doer´´; ida a Fátima a pé; arrastar-se e fazer sangue. ``Deus tem que nos dar as coisas, para a gente se lembrar dele, mas assim tanto sofrimento não!´´ exclamação de uma doente.
Aliás, é o modo como o doente exprime a sua doença que se pode inferir as crenças e representações desta e fazer o levantamento da ``arqueologia do saber´´ que lhe está subjacente. Assim, na Idade Média havia a crença que ``a saúde depende do estado do sangue´´. Crença que parece subsistir no expressivo pedido de uma nossa doente (em Vouzela): ``receite-me uma injecção de vitaminas para alimpação do sangue´´.
A medicina dos finais do séc. XIX (século da biologia e da anatomia) está ainda representada nas populações idosas e menos urbanizadas, em que há a tentativa de objectivar o seu mal e localizá-lo de acordo com representações anatómicas que conhece. É muito frequente a ideia de que os nervos se localizam em algumas partes do corpo: ``os nervos atacam-me na boca do estômago e por isso é melhor fazer a chapa´´; ``mete-se esta paixão pelo corpo dentro e ataca-me o coração´´.
Aliás, Michel Foucault afirma que é a partir do séc. XIX que se passa de ``o que é que você tem´´ para ``onde é que lhe doi´´. Há assim todo o interesse do registo dessas expressões, pois é necessário reconstruir a lógica do pensamento, isto é a sua cultura médica (a do doente) que é subjacente à sua visão do mundo (crenças e representações).
Comentários
Enviar um comentário