AMULETOS
Desde sempre o homem procurou conhecer-se. Ao fazê-lo esbarra, a cada passo, com o desconhecido que o rodeia e que, logicamente, não consegue compreender.
Apercebe-se, então, de que é o centro de um universo paradoxal para o qual convergem forças antagónicas que o gerem e o conduzem.
Confrontando com a presença da dicotomia fundamental do Bem e do Mal, realidades que não controla e explica, tenta refugiar-se, desde a Antiguidade, num casulo poroso ao Bem mas não permeável ao mal. Daí que crie, à sua volta, mecanismos psicológicos com base em elementos físicos, que lhe permitam resguardar-se de investidas ocasionais de seres sobrenaturais maléficos ou de actividades dos mesmos.
Aparecem, deste modo, na História do Homem, os AMULETOS, que actuam por sugestão. É que, o homem, possuído pela angústia que lhe advém do medo do desconhecido, projecta nesses objectos (quantas vezes de uso corrente) amálgamas de tensões que vão esbatendo as forças do ``feitiço´´ e /ou do ``mau- olhado´´. Tudo porque os olhos transbordantes de inveja são ``maus´´ ou ``ruins´´ porquanto provocam o infortúnio e porque, em última instância, o mal são a face visível do Diabo.
Por causa desta crença intemporal, já o homem da idade do Bronze e do Ferro se ornava com pendentes de peito e usava diversos talismãs.
Mais tarde, os povos orientais, os gregos e os semitas adoptaram, também, objectos capazes de perpetuar a Felicidade e a Ventura
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Ontem como hoje, o homem é romeiro, é caminhante. Procura na Ventura e na Felicidade o equilíbrio ideal. Por isso, como afirma João de Pina Cabral em Filhos de Adão, Filhas de Eva, `` como protecção contra o mau-olhado, as bruxas ou os ``feitiços´´, pode usar-se uma ``figa´´ feita com a mão esquerda ou um alho- porro em flor, roubado na noite de S.João´´. Para além destes amuletos, outros existem como é referenciado por Leite de Vasconcelos.
Assim, para uns, o anel de fava é bastante eficiente contra a enxaqueca; uma cabeça de alho colocada sob o travesseiro é óptima porque o seu cheiro protege das bruxas. Para o reumatismo, o uso de duas batatas no bolso é muito eficaz.
Mas, se o doente padece de epilepsia deve trazer, permanentemente ao pescoço, um ramo de coral. Também os doentes têm propriedades únicas: se forem de lobo afastem problemas de dentição nas crianças, ao mesmo tempo que lhes tira o medo. Outro amuleto muito em voga é um saquinho onde, conjuntamente, se pôs arruda, aipo e alho virgem (cabeça não dentada).
Todos estes ingredientes deverão ser fritos em vinagre forte. É que , o cheiro acre e nauseabundo que exala o preparado, para além de ser bom contra as bruxas, afasta o Diabo e dissolve o mau-olhado.
Também a castanha tem, como tantos outros alimentos, um papel a desempenhar na reabilitação do doente/crente.
Deste modo, devem-se comer-se cruas no 1º de Maio pois, assim, há a garantia de, nesse ano, nunca vir a doer a cabeça. E, se se encontrar uma castanha de três quinas, deverá guardar-se para proteger a casa.
Hoje, outros, amuletos suplantaram os tidos como infalíveis pelos nossos avoengos. Como estes, inconscientemente, projectamos neles os nossos medos, conflitos e pequenez e neles depositamos o fruto fértil da imaginação; neles depositamos a crença singela que se vivifica de Fé e se petrifica na tradição de que ``há uma luta contínua entre as forças do bem e as forças do mal´´, que provoca nas gentes um sentimento de mal-estar e de insegurança, ``razão básica que impele os seres humanos de instaurarem a sociedade perfeita neste mundo decadente´´.
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