A relação médico-doente
A relação médico-doente
A relação médico-doente envolve uma arte e uma técnica. Supõe artimanhas (arte e manhas), até porque se estrutura numa navegação a dois num mar de angústia. Angústia sentida pelo doente que quer a cura ou o alívio do sofrimento. E um solidário sentimento de partilha por parte do médico em lhe ser útil e eficaz. Neste mar adverso, médico e doente resolvem fazer a sua viagem, cada qual a governar o seu barco (manutenção dos respetivos estatutos sociais) mas juntos sonham chegar a porto seguro. Como primeiro responsável pelo êxito da viagem compete ao médico interrogar-se ``O que é um doente´´?
Sem dúvida que é uma pessoa, mas fragilizada, que apresenta um pensamento mágico-primitivo. Apresenta uma maneira de reagir bem diferente da que é própria quando não está em sofrimento. Na luta contra a doença assiste-se com frequência a uma demissão de parte importante da inteligência do paciente. Perante a ameaça e a doença verificam-se, amiúde, casos de regressão ou de reação de proteção do organismo: posiciona-se como um feto (posição fetal), toma atitudes adolescentes ou infantis (``dobramo-nos´´).
Neste regredir há uma redução tempo espacial: o doente vive no tempo presente e isola-se; há um egocentrismo, não consegue colocar-se no lugar de outrem; há dependência e como uma criança, ``tem necessidade dos outros´´.
Porquê esta necessidade de regressão? Acreditamos que para ser melhor ser tratado, para obter atenção afetiva particular, para se subtrair a alguma responsabilidade e, muitas vezes, para requerer proteção económica.
Em suma, no estar doente há um revelar e resvalar para ``posições primitivas´´, reativam-se sentimentos religiosos, empola-se o apelo emocional à proteção que faz parte do passado biológico do homem, do seu lento desenvolvimento e maturação. Em contraste, readquirida a saúde, volta tranquilo e descuidado à sua vida relacional, como se a doença e o mundo em que se moveram por algum tempo fossem outra realidade.
A regressão, por sua vez, estabelece a transferência que se instala na relação médico-doente. O paciente tende, ao encontrar-se infantilizado, a reproduzir nesta relação os sentimentos, pensamentos que tinha face a superiores, pais, gurus, chefes de tribo.
Por sua vez, à transferência de atitudes infantis sobre o médico responde este com uma atitude de contratransferência. À atitude regressiva de total dependência o médico responde paternalmente. A atitude de desconfiança ou de oposição desperta sentimentos agastamento/frontal hostilização e, por vezes, comportamentos sádicos. O médico é olhado com os mesmos sentimentos, pensamentos e comportamentos com que outrora se tratavam os
pais ou os feiticeiros da tribo. Tanto pode curar um mal como infligi-lo. Vive sempre numa ambivalência extrema.
Por tudo isso, o médico perante o doente não pode abdicar do seu estatuto social, isto é, o médico vai desempenhar um papel que julga ser do médico, papel que também o doente espera dele: o homem seguro e poderoso, capaz de proteger, senhor de grande autoridade. O doente vai desempenhar o papel que julga ser o do doente, dependente, submisso, ansioso. O doente vai tomar uma postura que corresponde às suas crenças e representações mentais da doença e da cura.
As doenças e a saúde são também ``construções sociais´´. Grupos sociais diferentes, constroem a sua visão do mundo, a sua escala de valores com que classificam a realidade. A este propósito é exemplar a ``noção de tuberculose´´: o sociólogo – relaciona-o com a pobreza (má nutrição/promiscuidade); o escritor romântico - ``doença do amor´´; o operário – como doença dos fracos; o médico – acha-a resultante do bacilo de Koch; (até ser isolado o bacilo de Koch as histórias clínicas da TP eram, por vezes, tão laboriosas e tão românticas como algumas das nossas atuais histórias clínicas em Psiquiatria.
É-nos fácil compreender que, principalmente a população idosa e menos urbanizada, (que encara a doença como o castigo divino, onde perdura o mito do pecado original) recorra à medicina mágica e/ou religiosa. Senão veja-se o contentamento com que aceita cumprir tabus (proibições mágico-religiosas cuja transgressão leva ao castigo sobrenatural) como por ex.: dietas, jejuns…
Veja-se, ainda, a disponibilidade com que aceita cumprir terapêuticas eivadas de dor (sacrifícios no cumprimento de rituais vários) como sejam: preferência por injetáveis; ``para ser bom desinfetante tem de doer´´; ida a Fátima a pé; arrastar-se e fazer sangue. “Deus tem que nos dar as coisas, para a gente se lembrar dele, mas assim tanto sofrimento não!´´, exclamação de uma doente.
Aliás, é o modo como o doente exprime a sua doença que se pode inferir as crenças e representações desta e fazer o levantamento da ``arqueologia do saber´´ que lhe está subjacente. Assim, na Idade Média havia a crença que ``a saúde depende do estado do sangue´´. Crença que parece subsistir no expressivo pedido de uma nossa doente (em Vouzela): ``receite-me uma injeção de vitaminas para alimpação do sangue´´.
A medicina dos finais do séc. XIX (século da biologia e da anatomia) está ainda representada nas populações idosas e menos urbanizadas, em que há a tentativa de objetivar o seu mal e localizá-lo de acordo com representações anatómicas que conhece. É muito frequente a ideia de que os nervos se localizam em algumas partes do corpo: ``os nervos atacam-me na
boca do estômago e por isso é melhor fazer a chapa´´; ``mete-se esta paixão pelo corpo dentro e ataca-me o coração´´.
Aliás, Michel Foucault afirma que é a partir do séc. XIX que se passa de ``o que é que você tem´´ para ``onde é que lhe doi´´. Há assim todo o interesse do registo dessas expressões, pois é necessário reconstruir a lógica do pensamento, isto é a sua cultura médica (a do doente) que é subjacente à sua visão do mundo (crenças e representações).
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