"A fonte de todos os males"- Prisão de ventre
Prisão de ventre fonte de todos os males
Prisão de ventre sugere a imagem do pobre intestino atrás de grades, clamando em vão por liberdade. Uma imagem suficientemente forte para fazer com que milhões de pessoas se tornem consumidoras de laxantes ou até que procurem médicos.
Prisão de ventre, ou obstipação, não é um conceito unânime, pela simples razão de que não existe um padrão “normal” de evacuações, cuja frequência pode variar de três a doze vezes por semana, sem qualquer problema. Geralmente corrige-se ingerindo mais líquidos, mais fibras ou fazendo exercício.
Mas, ao longo da história, "os prisioneiros do ventre", tal como a Nau Catrineta, têm muito que contar... Desde a Antiguidade, o objetivo maior dos médicos era “limpar” entre nós "a alimpação do sangue " o organismo, aliviá-lo dos excessos e das impurezas. Isso era feito de duas maneiras: pela sangria e pela purga (Na Nau Catrineta, eram tantas as sangrias, que morriam da cura os doentes). Esta última compreendia dois métodos:
- O clister ou lavagem, feito com uma longa seringa, “a escopeta de Hipócrates”, denominação um tanto estranha se considerarmos que a escopeta, arma de fogo, não existia na época do pai da medicina. Diga-se que não era um ato médico: ficava a cargo de uma empregada. A duquesa de Borgonha, por exemplo, submetia-se à lavagem enquanto recebia cortesãos (graças aos amplos vestidos a limpeza, era feita disfarçadamente).
-O recurso a laxantes usuais à época. A purga era feita pela manhã, em determinados dias, selecionados conforme os signos do zodíaco.
Nas recentes comemorações dos 200 anos de Waterloo, embora não havendo consenso sobre tal, alguns "bio historiadores", incluindo o escritor americano Arno Karlen, acreditam que Napoleão em pleno palco de batalha enquanto os soldados lutavam corpo a corpo, travava uma batalha mais íntima contra as amarras da sua prisão de ventre e crise de hemorroidária, que o impediu do singelo montar o seu famoso Cavalo Branco, o que contribuiria para a falta de comunicação entre as suas hostes e consequente derrota na batalha.
Em princípios do séc. XX, um tal, Sir William Lane, começou a refletir sobre o significado evolutivo do intestino, e concluiu que era um saco de lixo, melhor, uma fossa séptica no abdómen, onde haveria uma multiplicação exponencial de bactérias. Assim, Sir Lane começou a remover porções crescentes do intestino, a fim de acelerar o trânsito e assim se livrar desse saco de “lixo”. As suas teorias tinham como suporte "científico" Elie Metchnikoff, (Prémio Nobel de Medicina em 1909), que defendia que os intestinos estavam destinados a desaparecer graças à evolução das espécies (Darwin, também dava para tudo). Metchnikoff exemplificou com o facto de os papagaios terem intestinos curtos e levarem uma existência feliz. Portanto, a chave para a saúde, de acordo com Sir Lane, estava na velocidade do trânsito intestinal.” O inimigo que nos espera, é a prisão de ventre,” a fonte de todos os males”, dizia.
Sir Lane removeria todo o intestino de centenas de pacientes, e os resultados dessa colectomia total foram, de acordo com uma revista médica da altura, "não apenas brilhantes, mas quase milagrosos. Logo depois, Sir Lane foi convocado para várias conferências médicas para esclarecer seus colegas sobre as vantagens de andar pelo mundo sem intestinos (desde que houvesse um WC por perto, certamente). Foi precisamente esta aceleração do trânsito que o condenou ao fracasso, prática, que viria a abandonar e discretamente Sir Lane redimiu-se fazendo a apologia do exercício físico e de uma alimentação equilibrada.
Nos finais do século XX, assistimos também, ao ressurgimento da prática da limpeza do cólon, agora com o nome de Colonoterapia ou hidroterapia do cólon, sob o fundamento da existência de toxinas fecais que ficam retidas no cólon e que devem ser eliminadas. Embora sem a aprovação da medicina oficial, centenas de clínicas espalhadas por vários países dedicam-se a este procedimento. Utilizam moderna tecnologia, com aparelhos automáticos, que injetam e aspiram através de sonda introduzida no reto, cinquenta a sessenta litros de água. Do folheto de uma destas clínicas transcrevemos as seguintes indicações, que chegam a ser folclóricas, tais como “prisão de ventre, flatulência; em processos de desintoxicação; stress, cansaço, irritabilidade; auxiliar no tratamento da pele (acne); prevenção do câncer do intestino; enxaquecas etc.”.
Observando a história da medicina longitudinalmente é observável que cada vez que surge uma nova tecnologia, há uma tendência de sobre utilizá-la, com propósitos que nem sempre são bem-sucedidos, apesar de se imporem como modas em Medicina. Exemplo, tratamentos com a eletricidade no os finais do séc. XVIII.
Mas, porquê esta obsessão com a prisão de ventre? Uma resposta... por causa do simbolismo representado pelas fezes, como viria a postular Freud. Segundo este, as crianças pequenas (dois a quatro anos) tendem, a reter as fezes que são, por assim dizer, a sua única propriedade, a sua única riqueza. Com que os pais, claro, não concordam; assim, a criança vê-se diante de um dilema: ou “cede” o excremento, trocando-o pela aprovação paterno, ou o retém, “para afirmação de sua própria vontade”. Nasce daí aquilo que muitos psicanalistas denominam de caráter anal, expresso pela obstinação, e também pelo amor à ordem e pela avareza — as fezes também simbolizam riqueza. Daqui provem a expressão “personalidade anacástica” (obsessiva). Certamente que haverá mais ...
Não é de estranhar, portanto, que a modernidade capitalista e neoliberal, que, pelo menos no seu início, valorizou a poupança, seja uma época de ventres muito presos e de laxantes e modas tecnológicas.
Façam o favor, de não esquecer, a fibra, a água, a caminhada e a Broa de Avintes!
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