Oliveira e Azeite
Se o Mediterrâneo foi o berço da civilização ocidental, a oliveira foi e é o seu emblema.
A linha formada pelos limites do seu cultivo serviu para marcar e definir um ecossistema, um território agrícola genuíno, ( vales e socalcos deslizantes que se afogam no Mare Nostrum).
Na Antiguidade , nenhuma outra árvore foi tão útil, tão valiosa e venerada .Os seus ramos coroaram heróis, não só de sangrentas guerras, mas também de grandes acontecimentos desportivos como os Jogos Olímpicos.
A azeitona que varejamos-"verde foi o meu nascimento e de luto me vesti para dar luz ao Mundo, mil cuidados padeci"e o azeite que saboreámos ,tiveram aplicações múltiplas.
Da iluminária de azeite,a primeira descrição aparece no Êxodo, com a referência ao candelabro de braços ou Menorah, símbolo do povo judaico. Segundo essa passagem, Deus encarregara Moisés da construção do objecto litúrgico, assim como, da sua posterior colocação no Templo.Para o acender, "ordenou-lhe" que utilizasse únicamente azeite do mais puro. Aos filhos de Israel caberia trazerem o sumo de azeitonas esmagadas afim de alimentar a Chama Sagrada
Por empatia, o povo hebraico serviu-se deste unguento para consagrar os seus reis , auferindo de Deus, a Autoridade, o Poder e a Glória mediante este rito de unção.
Foi e é ouro vegetal, na civilização judaico -cristã... também Maomé ,vislumbraria a luz sagrada de Alá no brilho acetinado do azeite.
Para as três religiões monoteistas;azeite e a oliveira foram, luz,sabedoria e paz!..., foram simbolo!... ..foram legenda.!..
Ontem, foi também anti_inflamatório, nas feridas e chagas da humanidade . Foi cosmético ,nas damas da Grécia e de Roma antigas, aquando acariciavam suas delicadas peles, em ....fantasias múltiplas!
Hoje, em uníssono, o Mundo aplaude o azeite e presta-lhe reverência. A gastronomia tempera a sua riqueza aromática nas suas polifórmicas digressões culinárias, e a medicina (re)descobre _lhe , propriedades curativas e preventivas ( colesterol e outras patologias actuais)
A estética comtemporânea, não sendo sinónimo de corte com saber antigo,releva ,"uma oliveira antes desdenhada", num dos elementos mais admirados nos campos e jardins, pela sua prateada beleza ornamental ,numa cada vez mais necessária procura, de luz....sabedoria ...paz!
Artigo pubicado no jornal....
Viseu,2001
Infopédia
azeitelocução azeitea.zei.teseparador fonéticaɐˈzɐjt(ə)
nome masculino
óleo extraído da azeitona
coloquial estar com os azeites
estar de mau humor
Do árabe az-zait, «idem»
azeite
imperativo do verbo azeitar expandir
azeite ele, ela, você
presente do conjuntivo do verbo azeitar expandir
que eu azeite
que ele, ela, você azeite
azeitelocução azeitea.zei.teseparador fonéticaɐˈzɐjt(ə)
o.li.vei.raseparador fonéticaɔliˈvɐjrɐ
nome feminino
BOTÂNICA (Olea europaea) árvore de folhas persistentes, da família das Oleáceas, nativa da região mediterrânica e muito cultivada em Portugal, pode atingir cerca de 15 metros de altura e tem tronco grosso e copa ampla, com folhas simples, lanceoladas a obovadas, de cor verde com tonalidade acinzentada, flores brancas reunidas em panículas axilares e frutos drupáceos carnudos (azeitonas ou olivas), dos quais se extrai o azeite
Do latim olivarĭa [arbor], «árvore da azeitona»
OLIVEIRA cavaleiro
Em dia de Nossa Senhora das Candeias há que frigir em azeite, nem que não seja, uma folha de oliveira, diziam os antigos. Já pelo Alentejo, território natural daquela árvore, era costume ouvir-se que “a oliveira dá-nos azeitona, a azeitona dá-nos azeite, o azeite dá-nos candeia, saúde no mal, gosto no prato”. Verdade. O azeite antes de ser retratado como a glória luminosa que cai no nosso prato e que exprime alma nacional, era óleo respeitado pelas inúmeras utilizações desde a iluminação à botica. Por isso o respeito, por isso a veneração. Também por isso a expansão da oliveira.
É verdade que esta árvore há muito se espraia no território português, sobretudo a sul cuja presença acontece antes da chegada dos romanos (já Estrabão fala dos olivais do Ribatejo), no entanto, a norte do Tejo a presença é mais recente e acontece pela ação da persistência, muitas vezes de uma engenharia humana dedicada a conseguir o impossível já que esta árvore não gosta de todos os solos, nem de todos os climas e, sobretudo, é sensível à altitude. A subida a norte no território é gradual sendo que é notório como a plantação de olivais pelas Beiras e em Trás-os-Montes obedece a um registo recente quando comparados com os olivais do sul.
Sempre me espantou como as oliveiras se seguravam em paisagens como as que admiramos quando passamos pelas margens do Rio Ocreza na Beira Baixa onde, pelo declive e pelo solo, aquelas árvores se parecem soltar a qualquer momento. Ficava perplexa pelo que levaria à plantação de olivais em locais tão difíceis. Até parecia que aquelas paisagens seriam apenas para a contemplação já que ter que apanhar as azeitonas em tão duras condições me parecia contra a dignidade humana. Não sabia eu que as oliveiras se acomodam bem a terrenos soltos, pedregosos, íngremes e difíceis. Hoje que é reconhecida a qualidade do azeite da Beira Baixa é fácil perceber que a qualidade dos produtos é memória e identidade que se constrói numa relação, nem sempre pacífica, entre a necessidade e a geografia.
No dia 2 de Fevereiro, celebramos o azeite, mas convém não esquecer a oliveira, árvore mítica sobre a qual Orlando Ribeiro escreve com doçura “com o tronco contorcido (…), com a folha miúda e prateada à luz do entardecer, na sombra protetora dos seus ramos simbólicos, a oliveira exprime, como nos tempos bíblicos, a rústica paz das almas e a fecundidade sagrada da terra.” Palavras cativantes que exprimem fascínio por uma árvore que representava fecundidade pela forma maravilhosa e múltipla como eram utilizados os seus frutos, as azeitonas. Para além de serem alimento tantas vezes presente num quotidiano de escassez, delas se fazia o milagroso azeite. Alumiava, curava, alimentava, limpava, conservava.
Hoje olhamos o azeite no prato e é moda gostar de azeite. Antes, o azeite era condimento da sobrevivência humana pela pluraridade de funções. Por isso, o povo se habituou a ser cuidadoso na sua utilização e, sobretudo, muito solícito no agradecimento da dádiva, seja da natureza, seja da divindade. Por isso no dia da Nossa Senhora das Candeias ilumine a noite com uma candeia de azeite e coma uma filhós frita em bom azeite e soletre baixinho “a folha da oliveira deitada no lume estala, assim é o meu coração, quando contigo não fala!”.
Comentários
Enviar um comentário