D. Zeferino

Dom. Zeferino Sendo pacifico, hoje em dia ,que a Culinária merece figurar “no quadro de honra” na História das Artes, em pé de igualdade com as plásticas, musicais ou literatura que ao longo dos milénios foram desenvolvidas pela humanidade parece-nos justo aceitar o desafio de relembrar a memória deste Beirão D. Zeferino, terá sido um dos pioneiros (na sua curta vida ) de uma reformulação da Gastronomia Regional Beirã, durante 2ª metade do século XX , mastigada e bebida nos nossos Fialho de Almeida ,Abel Botelho, Bulhão Pato… ou posteriormente nos titânicos programas televisivos de uma grande Maria de Lurdes Modesto ou nas semanais crónicas saudosas de José Quitério no semanário Expresso ,pois seriam na altura , talvez, as referências existentes mais visíveis . Abalava ele até ás aldeias, farejando e caçando receitas em plenas conversas vadias sobre um tempo antigo, entre conterrâneos , que ainda guardavam a tradição oral. Tinha como bússola as convicções “onde há um caminho há um humano” e se “uma teoria vinga ,é porque traduz uma qualquer parcela de um real”… tinha o Dom do “Etos” Autodidata ,experienciou saberes, apaladou sabores frescos ou fumegantes de Estios escaldantes ou de Invernos impiedosos .Observou contrastes reabilitou mesas …, apalavrou introitos e entradas ,coreograficamente ora agasalhava ou destapava comida e por vezes ironicamente tentava erotizá-la. Sabia enquadrá-la num tempo e num lugar numa perspectiva de tradição/modernidade explicando o porquê das suas escolhas, para aquelas bocas , porque , também, ouvintes…. tinha o Dom do “Pathos “ Polémista convicto; no seu palco, de voz colocada, vestia a pele, ora de um apresentador de um desfile de moda ,ora, a postura apolínea de um reconhecido guia etnográfico .( ou não enfrentasse ele os atavismos disfarçados “dum bife á moda casa” do “rosbife” ou o “para ser tradicional tinha de ser … “ Tradition is Tradition”… tinha o Dom do “Logos” Assim nasceu, um então “Cortiço de Viseu “uma embaixada das Beiras, um restaurante ..um sonho, a recuperação de uma rua medieval nas suas usanças e mesteres, um Museu Aberto de uma Gastronomia Regional Bem merecia o Dom Zeferino que a sua memória fosse evocada nesta Cidade, já que durante décadas, foi móbil de longínquas peregrinações ao seu eterno “ Cortiço “ Urge assim, a existência de uma placa, um marco, uma Escultura (por que não?), que corporalize a sua memória e a gratidão dos seus conterrâneos e admiradores. Até ao momento nada disso aconteceu, e principalmente quando a palavra “Turismo” pupúla quer como “salvação” quer como “panaceia”; esqueceremos os homens que em seu tempo o construíram? Este esquecimento da “essência e da forma “de D.Zeferino nos dói ,assim como nos dói ,que o sonho de D. Zeferino ( redescoberta da Gastronomia Beirã) tenha morrido em parte com ele, contudo exigimos justiça e reconhecimento para aqueles outros que anónimamente, continuam a mesma peregrinação Viseu 8 de Agosto de 2018 JLNA

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