Beber em Português
Sendo Viseu uma zona de excelente e antiquíssima qualidade de vinho, forçoso se torna optimizar por todos os meios (turística, gastronómica e economicamente) este potencial da nossa região. Por tal compete-nos debruçar-nos sobre ele.Não nos é difícil imaginar que o homem primitivo, na sua busca de alimentos, tenha tropeçado em coisas com as quais se envenenou (parcialmente). Terá certamente encontrado substâncias que o fizeram alterar o seu estado de pensar e até, o seu “juízo perfeito”.>Ora esse homem primitivo, angustiado por perigos vários (feras, tempestades e desconhecido), foi criando as suas superstições e seus mitos ou não fosse “a angústia a mãe do mito”. Criou, assim, a categoria de “alimento sagrado” ao experimentar o vinho, os alucino génios, osexcitantes… E seriam mágicos, os feiticeiros, os sacerdotes que teriam a arte de trabalhar com estes “alimentos” e os fariam parte integrante de rituais (de iniciação, matrimónio, exorcização, cultos dos mortos…).É-nos fácil ver as drogas compartilharem, sempre, o drama humano. Beber vinho institui-se deste modo, como um acto simultaneamente sagrado e profano.Em rigor, parece desconhecer-se quando e onde o homem terá bebido o primeiro trago de vinho. Conhece-se, no entanto, o uso do mesmo em fúnebres cerimónias religiosas de um faraó egípcio (7000 A.C.) e a própria Bíblia se refere à videira e ao modo como Noé a plantou e dos seus frutos sumarentos fez vinho.Admite-se, também, que a vinha tenha chegado a Portugal em 500A.C. , portanto, anteriormente à romanização e que o seu plantio se tenha expandido no sentido sul/norte.>E à medida que os monarcas portugueses conquistaram os domínios aos muçulmanos, foram intensificando o cultivo da videira como estratégia de fixação. É que, a vinha obriga o homem a uma ligação permanente e duradoira à terra.>Com o passar do tempo o homem foi aprendendo a melhor tratar da videira, introduziu programas de selecção e melhoramento de castas, buscando uma adequada relação com o solo e o clima de que dispunha. Paralelamente às inovações técnicas do fabrico e conservação, foi desenvolvendo uma arte de beber. Gerir o beber, dosear a quantidade, escolha dos vinhos em função dos momentos e dos pratos. Tudo se foi afinando e se consubstanciou numa arte que permitiu que se erigisse o vinho como “néctar dos deuses”. Néctar que tanto se bebia para fortalecer, para acordar as ideias, para afastar preocupações, para esquecer… E nele há tanto para esquecer!...E foi assim que “o beber vinho” atravessou permanentemente o quotidiano dos nossos antepassados, ou não soubessem eles que a felicidade é uma abstracção e os momentos felizes mais ou menos possíveis.>O vinho foi a droga leve (despenalizada quer religiosa quer economicamente) da civilização ocidental cristã. Por tudo isso, vimos a terreiro para, no ranking do consumo mundial de drogas defender os vinhos dos seus adversários (whisky e cerveja), os quais conquistam a nossa juventude através de técnicas publicitárias direccionadas para o consumo e, por isso sedutoras.>Não tenhamos ilusões! Vivemos numa sociedade contraditória que propõe ao jovem o consumo de bebidas alcoólicas, ligado a um gozo descomprometido. Sociedade que, na sua ideologia dum “hedonismo acrítico”, tenta confundir (e confunde!) o bem com o bom e que depois exige ao jovem uma competição feroz, que leva e levará a um aumento do alcoolismo.È que, a sociedade de hoje acentua a frustração dos que não triunfam, tornando-os vulneráveis quer a reacções depressivas, quer marginalizando-os pelas atitudes anti-sociais e conduzindo-os, regra geral, ao consumo de drogas.A angústia lusitana consome e consumirá muito álcool, sem dúvida! Por isso, não há paciência para almas reformadoras (misto de farisaicas e de puritanas) que fazem campanhas contra o nosso vinho, principalmente do modo como as fazem. Qualquer “Cristo da Terra” sabe que tudo faz mal quando se abusa e sabe que se pode morrer, logicamente, de tudo. Tudo depende do modo, do bom senso de cada um e de sermos, em última instância, consumidores esclarecidos.Apetece-nos dizer que defender o vinho – é defender o Papa de Roma – é defender a civilização mediterrânica (sul) face à do norte (whisky e cerveja).>Defender o vinho é defender uma droga leve, sem dúvida, mas portuguesa. A Nossa!"
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