No aniversário da cortisona
Comemorou-se este ano o 73º aniversário de um evento muito importante na história da medicina. Em 1949 o mundo ouvia, pela primeira vez, um termo que desde então passaria a fazer parte até mesmo da linguagem popular: “cortisona”. Na verdade, a substância já era conhecida desde 1935, quando o cientista Edward Kendall a isolou, com outros hormonas, das suprarrenais, pequenas glândulas que levam este nome porque ficam em cima dos rins. Também em 1949 o médico Philip S. Hench demonstrou que a nova substância melhorava dramaticamente a artrite reumatoide, uma dolorosa e incapacitante inflamação das juntas. Kendall e Hench tiveram os seus méritos rconhecidos : ambos receberam o Nobel de medicina Poucos medicamentos foram recebidos com tanto entusiasmo. A situação mudou em 1951, quando o britânico Peter Brian Medawar descobriu que a cortisona tinha funcões imunossupressoras,isto é, que era capaz de diminuir a atividade do sistema imune. Ao administrar-se cortisona a um paciente que ia ser transplantado aumentavam as possibilidades de êxito e diminuíam as de rejeição
Anos depois, o número de drogas derivadas da cortisona aumentou exponencialmente Eram e são usadas em doenças articulares, doenças renais, problemas de pele, asma e alergia. Os derivados da cortisona foram durante décadas,das drogas mais receitadas do mundo. Mas este uso intensivo também começou a mostrar os efeitos colaterais da cortisona, que não são poucos. Para começar, e como a droga minimiza os mecanismos de defesa do corpo (o que é bom no caso da artrite reumatoide, uma doença na qual essas defesas voltam-se contra o próprio organismo), os germes podiam propagar-se com facilidade, como acontece na tuberculose. A droga podia causar úlceras no aparelho digestivo, transtornos de personalidade, além da característica “moon face”, a face lunar, em que a pessoa fica com o rosto redondo. No caso de diabetes, hipertensão e osteoporose, também acarreta riscos..Raoul Dufy (1877-1953) representante do movimento artistico sofrendo de uma artrite que lhe deformou as mãos e o corpo, e depois de ter tentando múltiplos tratamentos da altura, que se revelariam já insuficientes para aplacar a sua dor e incapacidade de pintar, em 1949,aquiesceu a fazer a terapia, que dois médicos americanos seus admiradores, (que avaliavam o efeito dos extratos de glândula adrenal no tratamento da artrite), lhe propuseram..Em Boston, viria a ser tratado com acetato de cortisol da Merck . Dufy ficaria encantado com a ação benéfica da corticoterapia, que lhe permitira voltar ao trabalho. Pintara até uma aguarela que ofereceu reconhecido aos Laboratórios Roussel que a usariam na informação clínica. A peça seria a famosa “ La Cortisone ”.Um Raoul Dufy de aparência mais saudável ,regressado a França . Voltava um homem robusto, que se movia melhor e que voltara a pintar, mas que trazia nas entranhas o início de um fim..Mas e nestas coisas há sempre um mas,em 1953, na decorrência do uso de corticosteroides e aspirina, sofreu uma hemorragia intestinal incontrolável. E... este artista, pintor de flores exuberantes e paisagens bucólicas, foi sepultado em Nice. Significava isto que os corticoides teriam de ser retirados do mercado, como aconteceu com alguns anti-inflamatórios? De maneira nenhuma. Ficou claro que os benefícios excedem em muito os riscos. Mas também ficou claro que estamos falando de medicamentos que têm de ser usados com cuidado, Mas também ficou claro que estamos falamos de medicamentos que têm de ser usados com cuidado, inclusive na forma de cremes dermatológicos. A cortisona passou na prova do tempo; veio para ficar. Desde que a gente saiba como usá-la.
Comentários
Enviar um comentário