Quando a medicina foi política alargada

Pergunta: o que leva(ou) médicos a deixar consultórios, postos de saúde, hospitais para participar numa luta política mais ampla? Os motivos são vários e complexos, mas podem estar em parte ligados à própria opção profissional. Recorde-se que o reconhecimento médico por parte da sociedade somente ocorreu no séc.xix, com o prestígio das ciências positivas. O médico é alguém que trata do corpo/mente do paciente. O político reformista ou revolucionário quer curar o corpo social. E curar o corpo social pode, em determinadas circunstâncias, incluir a luta política formal e por vezes a luta armada, como a história nos recorda. Revisitemos pois alguns destes médicos que foram protagonistas muito singulares na história da humanidade . JeanPaul Marat, (1743-1793), um dos líderes da Revolução Francesa, era um  médico muito bem sucedido em Paris, um dos pioneiros no uso da eletricidade em medicina, tendo publicado “ Recherches lur l´´electricité medicale” (1783). Abandonou suas pesquisas para dedicar-se à política onde teve posições de destaque na implantação da Republica Francesa. Quando recorria as suas frequentes imersões continuadas  na sua banheira ,que utilizava como mesa de trabalho, afim de aliviar os seus padecimentos de pele, morreria, às mãos vingadas de Charlotte Corday,  filha de um adversário que mandara à guilhotina (inventada por um médico, o dr. Guillotin).Viria a ser  imortalizado por amigos  pintores que o recordaram, desfalecido na sua banheira, sendo de destacar o célebre quadro de Jacques –Louis David (1748-1825) “ o doutor Marat morto“ .Rudolf Virchow(1821-1929), o pai da patologia( a doença surge quando as células adoecem) (os fenómenos vitais passam – se célula e não nos fluidos humorais),aquando jovem médico ,já destacado cientista, em 1947 a pedido do seu governo  foi estudar a epidemia de febre tifoide na Alta Silésia, onde  constatou a relação pobreza-exploração-doença,  preconizando como terapias, liberdade politica/criação de empregos/ aumentos de salário/universalização da educação e principalmente medidas de higiene. Foi posteriormente censurado pelo governo por ter feito um relatório “politico” e afastado da Universidade. Viria a lutar nas barricadas da revolução de 1848 na Alemanha pois, para ele “os grandes problemas de saúde  são sociais “. Foi demitido e proibido de lecionar, porém onde continuou a dar aulas e a investigar anatomia patológica por outras paragens. Após a revolução, Virchow continuou a elaborar propostas para as reformas médicas e a intervir politicamente. Em1861 fundou o Partido Progressista e na condição de deputado, opôs se naturalmente a Bismark “Napoleão da Alemanha”.  Dele, são célebres as expressões “Excelência, o médico é o advogado natural dos pobres ““a política é uma medicina em grande escala” e muitas outras, na defesa dos desprotegidos. Um dia, porém, Bismark terá perdido a paciência, e desafiou-o para um duelo, o que Virchow viria a recusar, retorquindo “não é através da violência que se transmitem as ideias “. Viria posteriormente a apoiá-lo, quando este tomou a iniciativa de criar  o 1º Seguro de Saúde em 1886. (medida muito contestada pelos grandes proprietários das terras, que não queriam gastar um centavo, protegendo os seus empregados). Assim a Alemanha na 2ª metade do século foi pioneira no mundo no respeitante à segurança social, sendo seguida posteriormente pela Nova Zelândia e por muitos outros países já no séc. xx   Miguel Bombarda, médico, filósofo, e cientista de renome, participou nas célebres Conferências do Casino, com a coordenação de Antero de Quental (que tinham como pano de fundo a análise dum país concreto, iletrado e depauperado). Miguel Bombarda tornou-se ativista político- um dos maiores nomes ligados à implantação da República .Começou a sua carreira como deputado em 1908, filosoficamente liberal e anti clerical, defendia o monismo naturalista alemão  (defendia a unidade entre o corpo e a mente, e o único materialismo, que admitia a psicologia como Disciplina médica ) declarou-se abertamente republicano e  de cariz socialista, começando a colaborar e a  participar em manifestações populares  e abertamente, nos planos revolucionários para derrubar a Monarquia. Segundo alguns seria ele o comandante das tropas civis na insurreição que ajudara a planear. Em 3 de Outubro de 1910, foi assassinado aos 59 anos no seu gabinete no Hospital de Rilhafoles (hoje Miguel Bombarda), por um doente mental, seu antigo paciente.  Pelas ruas de Lisboa ecoava o “mataram o Dr Bombarda!” a insurreição era emergente e assim raiou o 5 de outubro de 1910, (dia oficial da implantação da República em Portugal) Ernesto Che Guevara, que abandonou a profissão para tornar-se guerrilheiro, primeiro em Cuba, depois em outros países, terminando na Bolívia, onde foi executado João Carlos Haas Sobrinho (1941_1972). Participou na guerrilha do Araguaia e acabou sendo morto em combate, a 30 de setembro de 1972, no Brasil  Em todos estas polifórmicas atitudes existe certamente uma constante a busca da Medicina Social (uma componente importante na transformação da sociedade.  Como fazê-la, sábia e equilibrada, nos dias de hoje? Será que vem nos livros de terapêutica?                                                                                                             Viseu,5 de outubro de2020

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O pastel de feijão – coisa de memória e de gula.

Cavacórios e cavacas

Final agrião