Arte e medicina

A grande aparição dos médicos nas obras de arte é um fenómeno relativamente tardio Na Antiguidade, existem várias pinturas e esculturas quer na forma de gravuras nas cavernas como nas “Trois Fréres nos Pirenéus franceses quer esculturas nilotas, representando Imhoptep como um sacerdote de cabeça raspada, às vezes sentado com um papiro enrolado na mão, quer sob a forma de bustos e gravuras de Hipócrates, (o pai da medicina) . Na Idade Média, em caso de doença, ainda era mais seguro apelar para as forças celestiais do que para os duvidosos conhecimentos dos poucos monges que enfrentavam pestilências e enfermidades . Os artistas preferiram retratar santos a médicos,mas no final da Idade Média, a medicina era já uma profissão reconhecida, começando a ser ensinada em verso “ Escola de Salerno” e convencionalmente pelas emergentes Universidades. Na modernidade, com o acesso aos cadáveres e à sua dissecação,(coisa proibida pela religião),artistas e médicos nomeadamente (Leonardo da Vinci deixou maravilhosos estudos de peças anatómicas) e principalmente (Vesálio com o seu livro Humanis Corporis Fabrica ) A medicina acabara por dar um grande salto Seria Rembrandt a registá-lo ao pintar a famosa “Lição de anatomia do dr. Tulp,” em que um anatomista mostra a cirurgiões a estrutura da mão. Os médicos agora eram pessoas importantes e muitos artistas o quiseram assinalar. No entanto, apesar dos conhecimentos anatómicos,os galenos mais conscienciosos, sabiam que, ainda era bem pouco o que podiam fazer pelos seus doentes. ainda imperava o purgar e sangrar para as restantes maleitas. Noutros ,já havia soberba e arrogância, estampadas, na falta de consciência crítica das suas limitações, no tratar as moléstias dos seus pacientes. Essa contradição não escapou ao olhar arguto de escritores e artistas. Surgiu assim a Sátira à medicina. Entre nós, portugueses, são célebres os Epigramas de Barbosa du Bocage, dirigidos aos Averrois do seu tempo. Reparemos pois no sarcasmo: Lavrou chibante receita/ Um doutor com todo o esmero;/ Era para certa moça,/ Que ficou sã como um pero. “Tão cedo! É milagre!” (assenta/ A mãe, que de gosto chora). “Minha mãe, não é milagre,/ Deitei o remédio fora.”(Obras de Bocage, p. 1160-61) Esse tipo de sátira teve correspondência na obra de pintores e desenhistas como no famoso William Hogarth (1697-1764) A caricatura estava entrar na arte e na imprensa, e os médicos tornaram-se um tema predileto . É preciso dizer, contudo, que o pincel satírico não retratava somente os médicos, mas também a sociedade em que eles estavam inseridos — gente que luxuriantemente, comia e bebia demais, e que, portanto, adoecia como resultado dos próprios excessos e extravagâncias. Mas, sem sátira ,é digno de registo um painel de um pintor holandês anónimo do Séc. XVII, “Quatro disfarces do médico”Visto pelos olhos do doente (um burguês rico) e da sua família, em que o médico vai assumindo a forma de diferentes personagens (ou rostos): no momento de aflição ele é o salvador, representado pela figura de Cristo após a recuperação o médico transforma-se primeiro em anjo e para surgir depois sob a forma de um vulgar Ser humano se ocorre a morte do doente o médico surge sob a forma de Diabo A partir do final do século XIX a situação mudou de novo. A medicina tornava-se agora definitivamente científica. Êxitos impressionantes foram conseguidos no diagnóstico e tratamento de doenças. Claro, os médicos ainda com muitos insucessos, continuaram objeto da veia satírica de muitos autores (Bernard Shaw é um exemplo), mas, paralelamente, a medicina foi idealizada até as raias da veneração. Apetece-nos corroborar com José Rodrigues Migueis (1901- 1980) “Se, ao traçar alguns episódios, rocei aqui-além pela ironia, é sempre com profundo respeito e comovida gratidão que me refiro aos autênticos apóstolos da Medicina que tenho conhecido [.] Nem de longe tentei reincidir na sátira de que há milénios eles têm sido alvo. Pode dizer-se dos médicos o mesmo que das mulheres e dos judeus: crivados de epigramas e ataques, a humanidade não sabe nem pode viver sem eles” ln “Quando um homem sorri á morte de meia cara “-ed-(1959 ) JLNA 2022 Referências bibliográficas Histórias Curiosas de la Medicina José Ignácio de Arana 1994 Más Histórias Curiosas de la Medicina José Ignácio de Arana 1998 História Curiosa da Medicina , Pedro Gargantilha 2019 WiKipédia As doenças têm História, Jacques le Goff 1992 Reumatologia ,Literatura e Arte Mário Viana Queiroz

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