Quando fumar era receita médica

O tabaco não teve uma má imprensa, como na atualidade, alias, gozou um tempo de notável aceitação como produto medicinal com atuações quase milagrosas tendo sido receitado entre nós desde o séc XVI com entusiasmo. O tabaco é uma planta da família das Solanáceas originária das zonas povoadas pela cultura maia e desta há relatos desde Cristóvão Colombo (1942) nomeadamente de Rodrigo de Jerez, o seu introdutor no velho continente, e o primeiro a sofrer na própria carne a dura mão da Inquisição, pois . Dos ibéricos que chegavam das Américas, vinham descrições como os indígenas das ilhas do Caribe faziam um curioso uso de uma planta, que na sua língua, chamaram Cohiba. Segundo estas fontes primitivas, o tabaco era utilizado pelos índios durante as suas cerimónias sociais e especialmente nas religiosas, quando os chefes e bruxos da tribo inalavam aquele fumo até ficarem embriagados por ele, e nesse estado eram capazes de entrar em contacto com os espíritos e transmitir ao povo oráculos e decisões da divindade ou podiam resolver assuntos de interesse comum dos que os consultavam. Noutras ocasiões os índios recorriam ao tabaco para aliviar o cansaço do trabalho (“ como não podem embriagar- se de vinho porque o não o têm, folgavam em embebedarem-se com fumo de tabaco”….) Em 1560, o embaixador françês em Lisboa, o médico, Jean Nicott introduziu a planta do tabaco na corte francesa e a recomendou à rainha Catarina de Médicis, que a utilizou com sucesso no combate às suas autocráticas enxaquecas. Segundo as crónicas do palácio, a noticia espalhou-se rápidamente pela corte francesa, e o acto de fumar, tivesse sido indicado para combater qualquer tipo de doença, e fosse denominada de «erva santa». Viria a saltar da corte para os usos e costumes sociais, apanhando o comboio da “moda “. Aliás, diz-se que os franceses sempre souberam através dos tempos, vender as suas mercadorias materiais, como intelectuais, como ninguém. Acrescente-se desde já, pois vem a propósito, que, depois da revolução Pasteuriana, viria a descobrir-se a substância activa, o alcalóide do tabaco, e em homenagem ao embaixador francês passou a denominar- se nicotina (êxito da eficaz propaganda gálica) Na verdade, a farmacopeia da época era muito pobre em remédios e vinha arrastando conhecimentos medievais e qualquer inovação seria muito bem recebida quer pelos médicos quer pelos pacientes... estávamos no início da modernidade. Entre 1537 e1559 editaram-se dezenas de livros fazendo eco da aplicação em noventa doenças! No entanto, em Espanha um médico, que jamais esteve na América, recolhia no seu quintal, todo o saber (plantas e animais) trazido pelos viajantes que chegavam do Novo Mundo ao porto de Sevilha, concretamente o espanhol Nicolas Batista Monardes (1512-1588) tido em toda a Europa pela máxima autoridade na Europa do séc. XVI e séc. XVII em farmacologia, depois da publicação, em 1574, do livro “Historia medicinal de las cosas que se traem de nuestras Índias Ocidentales”, que teve 40 edições em todos os idiomas, comentadas pelos melhores médicos de cada país e universidades. Do tabaco diria: ”é quente e seco em segundo grau” e “utiliza-se para doenças de causa fria, dores de cabeça e reumatismo, hemorragias, asma, tosse, eczemas… “. Para além da ênfase dada ao tabaco - de cuja planta publicou a primeira gravura, ocupou-se também de outras plantas com muitas notícias científicas sobre o milho, o ananás tropical, a batata, a salsaparrilha ou a coca. Em 1559, o médico Francisco Hernández Boncalo ficou conhecido por ter plantado a primeira semente de tabaco nos arredores de Toledo. Ao que parece, escolheu uma zona conhecida como cigarra, dado que costumava ser invadida por pragas de cigarras. Seria precisamente a partir do termo que se originou o vocábulo . Entre nós portugueses, consta que Pedro Alvares de Cabral terá descrito a sua utilidade nos abcessos e fistulas e outras lesões cutâneas, outros testemunharam as suas aplicações nas enxaquecas, no rejuvenescimento, na luta contra a sede. Damião de Góis, na Crónica do Felicíssimo rei D. Manuel (1566-1567) foi o 1º autor português a dar conta desta planta inicialmente vinculada ao uso medicinal Zacuto Lusitano, em obra póstuma de 1657, entendeu que o tabaco curava casos de alopécia e de epilepsia outros diziam “usar para curar maleitas desde feridas, chagas e mordeduras a . Posteriormente, o tabaco foi perdendo o seu prestígio como medicamento, vindo a adquirir como costume social em qualquer dos seus usos, mastigado, em pó ou rapé e fumado, funções ora de calmante ora de estimulante da criatividade. Remédio contra a tensão nervosa, parece que alivia e a sua falta nuns instantes agudiza mais o nervosismo. Para outros é fundamental para encontrar o fundo da mente para a criação intelectual, escritores artistas cafés, tertúlias. Rápidamente o tabaco passou de moeda de troca para compra de escravos em África a símbolo de ostentação, primeiro sob a forma de charuto e depois como o mais popular cigarro. Facilitador das relações sociais, entre nós ibéricos, “o oferecer um cigarro foi durante muito tempo um rito iniciático de amizade”, tendo indubitavelmente desempenhado um papel importante nos hábitos civilizacionais da cultura ocidental, desde há cinco séculos. Certamente que nenhum médico faria hoje as recomendações de Nicolas Monardes. Mas, inalar o fumo das ervas ora foi popular ou impopular, conforme as teorias de momento No final do séc. XVIII a asma era interpretada como uma doença “nervosa “ causada por espasmos dos brônquios e entrou em uso a planta Datura stramonium ou estramónio que foi importante para aliviar quem respirava com dificuldade. O estramónio era fumado em cachimbos normais. Podia-se cultivar e secar as raízes e os caules (mas não as folhas que têm um perigoso efeito narcótico -alucinogénio). Fumar era socialmente aceitável e ainda mais fácil com a introdução de charutos e depois dos cigarros (e dos fósforos). Os médicos receitavam-no como modo prático de inalar o medicamento. Os cigarros medicinais prescritos para asma no séc XIX faziam parte de um longo historial de terapia de inalação que continua hoje nos inalador és. No início do séc. XX o modelo espasmódico da asma deu lugar ao conceito de inflamação alérgica e, fumar passou a ser visto como menos terapêutico, pois surgiu a efedrina. Referências Gargantilha Madeira - Breve história de la Medicina. Arana, José.I. - Más Histórias Curiosas de La Medicina-Arana Ed.colecionador revista BBC História 2018 História da Medicina Valle J.C. D Terapéutica en la Enfermeda mental(um enfoque histórico)

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