Quando o psiquismo é a ponta do iceberg

O psiquismo pode fazer uma pessoa adoecer ou ter sintomas. Isso é uma coisa que se sabe há muito tempo. No século XIX, eram comuns, sobretudo em mulheres (então muito reprimidas), as paralisias de natureza histérica. De repente, a paciente não podia mexer um braço. Neurologicamente, estava tudo bem, mas a paralisia estava ali, e era resultante unicamente de um problema mental. Situação parecida é a da pseudociese ou falsa gravidez. Mulheres que desejam desesperadamente ter um filho, de repente, veem o seu ventre crescer, como se contivesse um útero grávido (mas é ar engolido). E, através do estresse, o psiquismo pode fazer surgir doenças às vezes graves. Não é de admirar que, em meados do século xx, a psicossomática estivesse em alta (o termo vem da soma de “psique”, ou mente, mais “soma”, palavra que em grego quer dizer corpo). No entanto, descobriu-se que doenças atribuídas a uma causa psíquica podem resultar de problemas orgânicos e até mesmo de infecção: por exemplo :o caso da úlcera péptica, classicamente atribuída à tensão emocional. Em 1982, dois pesquisadores australianos, J. Robin Warren e Barry J. Marshall, sugeriram que a úlcera podia ser causada pela bactéria Helicobacter pylori. A hipótese não foi muito bem acolhida e, num esforço para demonstrar sua veracidade, Marshall engoliu uma cultura da bactéria. Logo, desenvolveu gastrite, que é um estágio precursor da úlcera. E teve de tomar antibióticos por insistência de sua mulher, que não suportava mais o mau hálito do paciente. Doenças neoplásicas, como tumores do pulmão, pâncreas e colon, podem ter uma tradução psiquiátrica nomeadamente quadros depressivos e por vezes sintomas psicóticos . para não falar dos quadros neuropsiquiátricos demenciais (Alzheimer , Corpos de Lewis e multienfartes) da epilepsia temporal ou tumor cerebral Mas quem não se lembra do filme loucuras do rei George III que nos conta a história verídica do soberano inglês no final do século XVIII, aquando começou a apresentar distúrbios mentais tão graves que o levaram ao afastamento do trono. Durante muito tempo, o diagnóstico (retrospectivo, claro) foi de psicose. Mas, então, no começo dos anos 1970, dois psiquiatras, Ida Macalpine e seu filho Richard Hunter, reavaliaram antigos registos clínicos do rei e tiveram sua atenção despertada por um detalhe que não tinha sido valorizado: a cor da urina do rei, que era vermelho-escura. Essa estranha coloração, sabe-se hoje, sugere uma doença metabólica chamada porfiria, que é hereditária e na qual há falta de uma enzima que destrói substâncias químicas chamadas porfirinas. O acumular destas no organismo, traduz -se por vários sintomas, inclusive mentais, como depressão e delírio.(outros membros da família real tiveram quadros clínicos parecidos) Ou do aparatoso quadro demencial que vitimaria Nietzsche(18- 1990)vindo este, a ser afastado da atividade docente na Universidade da Basileia em 1879 por alterações comportamentais díspares, por estados ,que na versão dos seus alunos,(incluiam periodos em que a sua voz era quase inaudível / de exaltação megalómana, misturando canções ou dirigindo-se descoordenadamente às pessoas por meio de cantigas).Foram múltiplos, os especialistas que avançaram com um plausível diagnóstico de Sífilis Terciária, no entanto a sua cura só seria possível com a penicilina, na altura - miragem( só viria a ser testada durante a Segunda Guerra Mundial) Estes dois últimos diagnósticos rectrospectivos,não podem ser obviamente,comprovados,mas a probabilidade de que sejam verdadeiros é grande Daqui emerge a voz avisada da experiência; em quadros mais ou menos obscuros, com sintomatologia psíquica, é imperioso fazer o estudo orgânico subjacente a todos os" soberanos" que queremos, que os nossos doentes sejam.

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