Evolução dos conceitos de Trissomia 21 e Racismo
Há 155 anos, em 1866, John Langdon Down, médico inglês, trabalhava numa instituição para crianças com atraso mental e publicou um curioso trabalho intitulado “Uma classificação étnica dos idiotas” (idiotas e imbecis era a maneira como os médicos de então se referiam a crianças com déficit intelectual). No artigo, Down descrevia um grupo de jovens pacientes que tinham características em comum (incluindo a conformação do globo ocular) e que ele rotulou como “mongoloides”. Termo infeliz, duplamente depreciativo para as crianças, em primeiro lugar, e para o povo da Mongólia. Devemos lembrar que, à época, o colonialismo britânico estava no auge, e muitos povos da África, da Ásia e da América eram considerados “inferiores”, inclusive e principalmente do ponto de vista do desenvolvimento intelectual. Em 1959, dois pesquisadores, Jérôme Lejeune e Patricia Jacobs evidenciaram que a causa do síndrome era a trissomia, ou seja, a triplicação do cromossoma número 21 (lembre-se que os cromossomas são os portadores dos genes, nos quais está a nossa carga hereditária). “Trissomia 21” é, pelo menos, um termo mais neutro. O raciocínio nosológico de John Langdon Down exemplificava um posicionamento científico, e sobretudo político, que esteve em vigor durante muito tempo. Esta escola de pensamento baseava-se no evolucionismo darwiniano e partia do princípio de que, assim como houvera uma evolução das espécies animais, existia uma evolução das “raças” humanas, estando algumas ainda numa escala inferior do processo. Isto também podia acontecer com pessoas. Assim, os jovens a quem o médico observava tinham tido uma “paragem” no desenvolvimento intelectual, o que os tornara semelhantes a pessoas das “raças inferiores”: os mongóis, no caso. Por incrível que pareça, o termo continuou a ser usado até os anos 1970, quando, depois do protesto de pesquisadores asiáticos, foi abolido. Passou a se falar então, em síndrome de Down. Os mongóis não eram os únicos: os negros também estariam nesta situação, mais próximos dos primatas do que dos brancos europeus, considerados o auge da escala evolutiva. O apelido de “macaquitos” dado aos negros é uma decorrência desse pré -conceito. Visão passadista?Puro engano. Em 1994, dois pesquisadores, Murray e Herrnstein, publicaram um livro chamado The Bell Curve, a respeito do quociente de inteligência (QI) em brancos e negros. Nestes, o QI é cerca de quinze pontos menor, o que levou os dois autores a concluir que os negros são mesmo intelectualmente inferiores aos brancos. Mas outros cientistas ponderaram que: 1) não está provado que o QI esteja de fato correlacionado à capacidade cognitiva; 2) ninguém sabe até onde pesam as influências culturais — afinal de contas, o teste do QI foi concebido por investigadores brancos para se adequar à realidade vivida por eles... E agora que se fala tanto de QE !(coeficiente emocional) E que dizer de Mandela /Obama /Kofi Anan? James Watson um dos descobridores do ADN em 1953 e que foi um dos galardoados com o Nobel em 1963, em 2007, viria em entrevista ao The Sunday Times a afirmar “ todas as nossas políticas sociais se baseiam no facto de a inteligência deles ser igual à nossa , quando todas as provas mostram que não é bem assim “ Estes comentários , que o forçaram a demitir-se do conselho de administração do Laboratório de Cold Spring Harbor nos EUA, onde trabalhara 40 anos, foram mundialmente rebatidos pela comunidade científica que +- afirmou “Não há qualquer ligação entre os genes da cor da pele e os genes das funções intelectuais . A ligação entre a cor da pele e as capacidades cognitivas não está fundamentada, nem há razões para suspeitar que exista uma “ Depois do nazismo e do apartheid,estas posturas ainda sobreviveram e sobrevivem .Cavalli-Sforza. o investigador que mostrou a proximidade genética entre as populações humanas, reduzindo a raça a um conceito cultural sem justificação biológica, recebeu muito correio de ódio de supremacistas brancos, revelava a revista da Universidade de Stanford, num artigo sobre o seu professor emérito em 1999. Mas há tolices que duram muito. O preconceito contra os portadores da trissomia 21 sobreviveu por cerca de cem anos. O que não tem nada a ver com cromossomas ou cor da pele. Apetece-nos parafrasear Unamuno”o Fascismo cura-se lendo e o Racismo cura-se viajando".
Referências
Filomena Naves e Teresa Firmino- “Porque é que as bailarinas não ficam com a cabeça a andar à roda ?
Clara Barata-- Jornal o Público, 1de setembro de 2018-do artigo JLNA
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