Ainda a TV e … as violências

A Televisão, essa deusa electrónica menor, foi entronizada nas nossas casas e, sem dúvida, assenhorou-se de parte do sagrado das nossas vidas. É através dela que nos murmuram “desiste de serem quem és, porque eu dou-te uma coisa”; é perante ela que, na nossa solidão, nos ajoelhamos diariamente na busca de uma redenção mágica; é por ela que vemos e falamos um real que, afinal, nem palpamos. É ela que nos diz “só os técnicos é que sabem”; se aquilo é ou não “conhecimento cientícico”, a nossa imagem é ou não economicamente viável. Enfim… Ela e só ela nos adormecem no seu regaço de ficção. È sobre este narcotizante que nos vamos debruçar. Ninguém duvida que “uma imagem vale por mil palavras”; que a Televisão tem sido um veículo de divulgação de rios enormes de informação; que é um factor de democratização (tanto entra em casa do rico como na do pobre). Ninguém duvida do avanço que representou para a vida de todos nós. Ela actua como um amplificador do real e, porque gerida por humanos, não está imune à perversão (a mesma que é míldio de todos os mortais) e que recrudesceu após a denominada “guerra das audiências”. Por isso, a Televisão tornou-se a imagem violenta da violência dos homens. Ora, são estas imagens violentas o estímulo facilitador de moldagem do comportamento agressivo nos prés-adolecentes, como é referido em estudos da psicologia recentes. Aliás, outros saberes opinam sobre a violência televisionada e indicam que a Televisão actua a vários níveis: é facilitadora de aquisição de comportamentos agressivos; é responsável pelo desencadear e causadora da baixa de controle individual sobre o comportamento agressivo. Recorde-se os recentes e trágicos homicídios praticados por crianças. É grande e sedutor o poder da imagem na transmissão de informação e esta super-abundância está, muitas vezes ligada a uma grande superficialidade de conhecimentos. Demasiado rápida, a informação torna-se fugidia e esquece-se. Por outro lado são estimuladas atitudes de passividade e não de construção de saber. Não é por acaso que as crianças e adolescentes que vêem mais televisão são os que estão menos integrados escolar e socialmente. Não é por acaso que Portugal é o país da C.E.E. em que o cidadão médio consome mais o pequeno écran. Alguém afirmou que “o cinema é memória e a Televisão o esquecimento” mas por ser mais alienação, por ser mais alcoól. E se o é, deve ser bebido e conversado, calmamente, para dar tempo que o fígado (Família e escola) o torne biodegradável, isto é, o transformem em CO2 e H2O. Caso contrário, a ingestão rápida e maciça faz com que a alienação chegue intacta aos neurónios e a embriaguez surja. Como tal, a Televisão deve ser consumida em função da vitalidade do funcionamento da Família e da Escola. Ora, como estas duas instituições, sem bússola, navegam errantes, torna-se imperiosa a intervenção cívica (associação de telespectadores e outros) na regulamentação e gestão dos narcóticos sociais. Na Escola, na criação de espaços de reflexão crítica (atitude de distanciação perante a ampliação do real, ìnsight´perante vários reais criados. Mesmo que os nossos técnicos falem na “inviabilidade económica” (logo para eles irreal) das nossas propostas; mesmo que até sejam como glutões do Presto para os quais não há sujidade que resista, devemos pensar no que afirmava Ortega Gasset: “os técnicos são sábios bárbaro” o optar pela “confiança na própria experiência” - na “pistis”. A televisão, como o vinho, tem que ser bebida e conversada a uma velocidade que tenha a dimensão humana – a da nossa. Viseu informação, Março de 1995

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