A evolução da relação Trabalho/Ócio, através dos tempos

A aversão ao trabalho é muito antiga e frequente em várias camadas sociais .Aliás a palavra ,”negócio”vem do latim nec otium(não ócio). Começou por ser um termo pejorativo,pois o ócio era um direito de gente superior; pois negócio era para a arraia miúda,para os invejosos. No vento da história viria também a palavra “trabalho”, que deriva do latim Tripalium (peça em madeira em forma de cruz,com que se atiçavam os escravos) . Não deixa de ser curioso, que as élites portuguesas não lhe dessem a elevação que as suas congéneres espanholas e italianas deram,ao referirem-se ao mundo do trabalho como o mundo “obrero “ do “laboro”repectivamente. O trabalho físico e manual era particularmente desprezado, era coisa para escravo e havia um costume muito curioso entre certos homens;deixavam crescer a unha do dedo mínimo, que atingia enormes dimensões. Eis a mensagem encoberta. “Esta unha prova que eu não trabalho com as mãos” Gente fina e inteligente ganhava dinheiro sem trabalhar . Mas as realidades e sobrevivências dos humanos acometeram-no a qualquer trabalho a que chamaram (pão), mesmo que ele lhe ocupasse 16 horas do seu dia,.como aconteceu no séc XIX.A fanática devoção ao trabalho foi incorporada por outras culturas. Os japoneses nem sequer têm uma palavra para designar lazer. Ainda em 1939, quando a semana de quarenta horas já era regra na maioria dos países ocidentais, os japoneses trabalhavam em média dez horas ao dia, seis dias na semana. Contudo nem todos consideram ou consideraram o trabalho uma bênção. Paul Lafargue (1842-1911) seria contundente no seu livro “O direito à preguiça”(1880) ” Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista.Tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há séculos ,torturam a nossa triste humanidade..Esta loucura é a paixão doentia pelo trabalho,levada até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua prole(…..) Na sociedade capitalista , o trabalho é causa de toda a degeneração intelectual,de toda a deformação orgânica “ O filosofo inglês,também defensor da redução da jornada de trabalho, Bertrand Russel no seu livro”O elogio do ócio “ironicamente foi dizendo “A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos .Na Inglaterra do início do séc XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha 15horas e algumas crianças cumpriam. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais , Foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida ,e as crianças afastadas do crime “ Mais recentemente, o italiano Domenico de Masi, no seu livro “O ócio criativo”(1995) lançou um conceito, em que trabalho ,estudo e ócio se poderiam conjugar no sentido de satisfazer melhor as necessidades humanas. Segundo De Masi, “o coração da sociedade atual é a informação, o tempo livre e a criatividade” “quando a maioria das tarefas consistia em gestos físicos e repetitivos, existia uma relação estreita entre a quantidade de tempo na linha de montagem e a produção. Ou seja, o ócio era, efetivamente, contrário à produtividade”.A sociedade pós-industrial privilegia a produção de ideias que, por sua vez, exige um corpo quieto e uma mente irrequieta. É o que De Masi chama de “o ócio criativo”. As máquinas trabalharão num ritmo sempre mais acelerado, mas os seres humanos terão sempre mais tempo para refletir e para criar. “A tecnologia permite-nos, a cada dia trabalharmos menos e produzirmos mais. Para promover o emprego, a solução é reduzir a carga horária de modo que todos trabalhem um pouco, os horários flexíveis e ampliação do tempo livre para cuidar da vida pessoal.”.Acrescenta, “hoje, quando a maioria das atividades é intelectual, a organização capitalista deve entender que as novas ideias necessitam de reflexão, estudo e serenidade”.No entanto vai avisando" É preciso reestruturar a empresa, pois ela está cheia de paradoxos. Invoca a colaboração, mas prega a competitividade, invoca a meritocracia, mas frequentemente vive no nepotismo, a empresa está cheia de paradoxos que devem ser melhorados e derivam do facto dela estar totalmente subjugada à mentalidade americana, todos os tratados de organização, todos os livros lidos pelos executivos vêm dos Estados Unidos." . Enfim, tanto a ideia de ócio criativo de Domenico de Masi, quanto à da redução da jornada de trabalho de Bertrand Russell são vanguardistas, e passíveis de ser experimentadas por aqueles que podem, querem e estão dispostos a correr os riscos.

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